Saturday, May 23, 2020

De cães, de gatos, de Covid e de Nós


A Vida é isto. É uma dança, vivida algures num sonho longínquo, numa danceteria perdida, pirataria inconfessável, corpo a corpo, mano a mano, passo doble de emoção, tango de paixão, cha-cha-cha de Prima Balllerina, aquela que nunca soube ser, e nunca serei. A Vida é partilha, seja ela de que forma for. A Vida somos tu e eu, passado (im)perfeito, num futuro mais que perfeito, onde te piso os pés de forma atabalhoada. A Vida é maresia, salpicos salgados de inverno, transformados em sonho de verão, quimera de uma primavera roubada ao tempo. A Vida são promessas. Vamos fazer-nos à estrada? 

Enquanto um cão partilha a cama com um gato, estamos bem. O que é a Vida? "Only when you leave, I need to love you"... e o que é o amor senão a sensação de partilha de intimidade? Deixa-me esparramar as minhas pernas nas tuas, adormecer nos teus braços, ouvir o teu sono embalado no meu, e com isso, dá-me a promessa de intimidade, a nossa, tão antiga quanto actual. Hoje vou adormecer contigo, num abraço só nosso, tão...TANGO PASSION! E quando a Vida nos levar, nos seus espumaços, para praias diferentes, lembra-te de que...de que foram tempos intensos, de amor, de promessas, de...sei lá eu de quê! E de que, no meio disto tudo, temos responsabilidades. A tua Praia desemboca na minha, quer queiras ou não, e a minha areia faz parte dos espumaços da tua água. Teremos o verão, e sempre, sempre o borbulhar da água ao fundo, num Paraíso que é meu porque o roubei aos contos de histórias, de aventuras, as tuas, as minhas, as nossas, perfumadas por flor(ais) que serão eternamente nossos. Esse Paraíso que é tanto meu quanto teu, e onde nos (re)encontraremos debaixo de uma eira que nos convida ao amor!

Covid do dia

"(...) The coronavirus crisis has now revealed the austerity logic to be an utter sham: as advocates of modern monetary theory (MMT) have been saying for years, states that issue their own currency and issue debt in their own currency (i.e. every advanced country in the world with the notable exception of the eurozone) can never ‘run out of money’, nor can they become insolvent because, unlike households or firms, they can literally create money out of thin air. (...)" Mais, aqui

Friday, May 22, 2020

A Cidade e...o Campo ou 100 Megas em Tempos de Covid!




- "Lúcio, Lúcio, consegui, consegui!`"

Do lado oposto da mesa, e sem distância social, mas, digamos, o suficientemente longe para nos permitir jantar em decência, vejo um arquear de sobrancelhas. Uma expressão que me é familiar. O arquear de sobrancelhas do Lúcio quer dizer várias coisas. Já sabemos que a primeira é um certo aborrecimento pelos entusiasmos infantis de adultos desesperados. O outro, enfim, o outro é um misto de "não me chateies que estou a jantar e pelo canto do olho a ver as notícias" e, o último, o melhor de todos, é quando o Lúcio mostra alguma desconfiança face às minhas decisões precipitadas.

Precipitada ou não, já tenho internet a bombar. Espero que seja não só precipitada, mas rápida, em catadupa de dados, megas e gigas, e que me permita a fuga. Fugir fazemos nós desde Março de vinte vinte, mas a minha, prende-se com o Campo. Normalmente, e perante os desafios da Vida, fujo para a frente, numa espécie de salto quântico. Agora quero fugir para o lado, para o Campo.

Sou ser de cidade. Quem me tira o cosmopolitismo de entrar na Zara, na Oysho, na Womans Secret e na Levis, para depois, carregada de sacos de compras, ir degustar um sushi e gastar os últimos maravedis sem remorso, tira-me tudo. Depois, vestir uma roupa nova da cabeça aos pés, sem esquecer a lingerie de rendas francesas, claro está, e ir jantar ao último restaurante da moda. Menu de degustação. Pratos enormes, decorados e não tanto confeccionados; vários de preferência, fazem as minha delícias. E, no entanto, aí está o paradoxo da coisa. Ou melhor, da pessoa: gosto do campo. De deixar para trás a maquilhagem, as toillettes sofisticadas e o ferro de alisar o cabelo, de calçar uns tamancos atabalhoados e umas calças que não se amarrotam e, de cabelo revolto, polvilhado de caracóis indomáveis, partir à descoberta. De cantos e recantos, raízes e plantas, bichos - desde que não vespas, tenho fobia às vespas - e outras demais criaturas. 

Os cem megas permitem-me isso. A Liberdade. O vaguear da Alma em tempos de Covid. Deixá-la pendurada num "Hammock" e com a água como pano de fundo e um por do sol que me tira do sério,  ouvir as histórias que o Lúcio conta, enquanto afaga o seu cabelo naquele gesto tão intrinsecamente seu, em frente a um copo de vinho branco fresco ao almoço, ou tinto aconchegante ao jantar. E com aquela voz grave e meio rouca, aquele arquear de sobrancelhas.

Estou de volta ao Paraíso e pergunto-me: "mas, mas, que significará este novo arquear de sobrancelhas? Um arco entre a Cidade e o Campo, ou a alegria de um retorno, um reencontro em tempos de Covid?"


Um spa no telhado


«Querido Lúcio Ferro, desculpe o "querido", mas apeteceu-me, leio-o um tanto pateta, um tanto perdido e apeteceu-me tratá-lo por querido. Pronto, ou prontes, antes de começar a espingardar no correio de volta, inicio de novo: Querido Lúcio, melhor assim? Deixa-se de nostalgias, é o que lhe quero dizer. Deixe lá essas coisas do passado e das dificuldades, estamos quase todos a passar por isso, como saberá. Ademais, há que dar tempo ao presente. Ao agora. Há que dar tempo ao lazer de que podemos desfrutar no presente, o lazer é essencial para o equilíbrio do ser humano, é preciso dar tempo para descansar, para apreciar, para pensar, para... Muitas outras coisas. E é curioso, um dos seus discursos anteriores estava pejado de referências à Linha de Sintra e eu, eu ainda ontem de manhã me deu um repente, desmarquei tudo o que tinha para fazer, reuniões, video calls, pus-me em em modo de away, peguei na carteira, deixei de propósito o telemóvel em casa, enfiei-me no meu automóvel, que já bem que precisava de rodar e fui passar o dia na Linha, via Santo Amaro, Parede, Cascais, Guincho. Só voltei já era noite. Não vi quase ninguém, tão bom não termos turistas. Faz tão bem sair assim, por vezes, mudar de ambiente, largar o teletrabalho, entrar num ritmo diverso, apreciar o tempo por si mesmo. E agora, a pergunta incontornável: Would you like to meet during the weekend? Vai estar sol, tenho um spa no telhado, espumante no frigorífico e não está cá mais ninguém...»

Thursday, May 21, 2020

Covid do dia

...Lavei mais vezes as mãos em três meses do que no resto da minha vida e não vou para novo...

Wednesday, May 20, 2020

Alles gute

Imagine that you are 50 years of age. Imagine that you've grown a pablo escobar type of belly and a long grey hair to match, never mind the moustache. Imagine that the summer is around the corner,  you're eating outside, wearing just but shorts, you got 3 kittens, a full grown dog and a woman that is rather fluent in German (and hot). Imagine that you're broke, but you're still living the life, and that your business associates keep telling you they're going under and that unless you do as they say you are soon to follow. Imagine that, on top, there's a virus that's bringing havoc on all of your financial enterprises. Imagine that you're thinking about it after an excellent meal. Imagine that it was smoked salmon, fresh asparagus, Greek potato salad, Mediterranean bread, a few glasses of Beaujolais wine, a cup of Colombian coffee and a Cuban cigar. Imagine that you're so fed up with speaking Portuguese, listening to German, that you decide to think and write in English. Imagine that you're in the process of doing it. Imagine that you receive a call, from a Mexican secluded paradise, on the Pacific coast and bingo, suddenly all chips fall into place and it seems you're apparently off the hook. Imagine that that call entices a somewhat risky proposal. Imagine that the guy making the call is dodgy, though a good friend and associate from the past. Imagine that his call comes bearing gifts and a potential huge profit. Imagine that. What would you do? Would you say yes, bueno amigo, or would you say no, no hablo?... 

Monday, May 18, 2020

Porto de aventuras


(...) Estava no primeiro ano da faculdade, 18 anos mal feitos, quando ouvi pela primeira vez alguém a chamar-me «morcão»; foi uma velha gorda, feia, que cheirava mal e sinceramente não percebi a sua interjeição. Havia sido transplantado de Coimbra para o Porto dias antes e «morcão» não era palavra, nesses tempos ingénuos, que fizesse parte do meu léxico. À época, fora viver para São Pedro de Campanhã, Azevedo, ali ao lado do palácio da circunvalação e sonhava ser jornalista, conquanto pouco ou nada soubesse da vida, das armadilhas do jornalismo e de quão cruéis poderiam a vida e certos «jornalistas» serem. 
Recordo-me de que costumava apanhar o eléctrico no Infante, o 1 (que ainda hoje subsiste, apesar de se ter transformado numa linha turística praticamente interdita aos locais) e seguir, daí, sempre pelo contorno da margem do rio, por volta das oito, nove da manhã (chegava sempre atrasado à primeira aula), até ao Castelo do Queijo, bem perto do sítio onde aprendi a pescar, muito antes, ainda menino, saía a tainha, a enguia e o robalo, pela mão da cana de pesca experiente do meu avô. 
Fazendo flashforward, na altura do 1, que ia do Infante ao Castelo do Queijo, não havia Ipods, Internet, de redes sociais nem falar e de telemóveis era assim uma coisa de que nem sonhávamos. Namorava ao único telefone de casa, eu e ela tínhamos um código, às oito da noite ela ligava e eu ia a correr para a única extensão; é para mim, é para mim! com a minha avó e o meu avô a trocarem olhares cúmplices da salita das refeições, à escuta do que eu ia dizendo no átrio da entrada. E eu, para além do namorico, nos dias em que não acordava a tempo de ir para a fac de eléctrico, apanhava o autocarro 3 dos STCP, o qual, depois de fazer uma curva imensa negociando o inferno da Rua do Freixo, me depositava em São Lázaro, à boca da Biblioteca Municipal, onde invariavelmente mandava às malvas a primeira e até a segunda aula, deliciando-me ao invés com as fichas de leitura e os arquivos da biblioteca, a recordarem-me o que seria a PVDE dos tempos igrejos do meu avô, resistente antifascista que chegara a albergar nos tempos do botas o Cunhal, na nossa casa de família. 
Tudo isso era para mim, jovem e inocente, um autêntico manjar. Ao sair da biblioteca, depois de deitar os olhos por Camus, Pessoa, Mário de Sá Carneiro, passava pelo Cinema Águia, ao fundo da ladeira, ao desembocarmos na Praça da Batalha, sorria aos cartazes revisteiros do Teatro São João, admirava o Último Tango em Paris no cinema Passos Manuel, descia a rua larga de Santa Catarina, com a sede do jornal onde viria a fazer a tarimba, numa transversal, já então decadente, e descia, a passo estugado, rumo à jugular da cidade, a Avenida dos Aliados. Aí, encontrava o Imperial com os seus magníficos vitrais, o Embaixador com o seu cheiro a espaço livre e corria, sempre atrasado, rua abaixo até ao planalto da estação das máquinas de ferro de São Bento (outro espanto de beleza), assumindo, apesar das pressas da juventude, uma postura reverente ou, tal como afirmavam os meus amigos reaccionários de então, «lá vai o Lúcio descendo pela rua de Santo António até ao Bairro da Sé velha da graça, passando fulminante pela rua do nosso senhor Mouzinho da Silveira, herói da campanha ultramarina, que para sempre o há-de curar das suas tendências anarquistas». 
Suponho, actualmente, que seriam outros tempos, outras formas de ver o mundo, o qual era, também ele, outro que já não é o de hoje, porque não poderia ser. Era um mundo mais ingénuo e era um mundo muito mais lento e um mundo que permitia amar e pensar de forma diferente do que a de hoje. Repetindo-me, não havia Ipods, os telefones fixos eram raros, computadores ainda havia menos, disso tenho a certeza, e o que havia, talvez em virtude de existir com mais permanência, com mais tempo para ser visto, com mais luz, com mais cores, talvez não fosse mais feliz mas - garantidamente - era mais genuíno. (...)

A fotografia foi tirada pelo meu avô materno, Fernando Gaspar, cerca de 1950.