Thursday, May 7, 2020

And the lemon tree...

Sete de maio. Todas as coisas boas precisam das más para serem devidamente apreciadas. Mais dia menos dia, teremos de regressar à cidade. Àquela azáfama de loucos. Aos extraterrestres todos burkinados de máscara e nós também o teremos de fazer. Bela sociedade esta que aí vem. Como se não bastasse, diz que por lá ainda anda a pandemia, que o covid não se foi embora e que a única diferença é que, agora, agora pelo menos já têm lugar para nós na UCI, só para o caso. É um fraco consolo. Dar com os costados numa UCI, para mim, que já por lá passei várias vezes, não é pêra doce. Porém, terá de ser: o dinheiro e tal, vamos ter de o arrancar na cidade. De qualquer forma, enquanto vamos e não vamos, estamos por aqui e aqui, para além de muitas outras coisas boas, temos estas.






Wednesday, May 6, 2020

Se eu fosse "experto" seria rei do gamanço


Em primeiro lugar, vou já dizendo que não gosto de trabalhar. Que trabalhar é uma merda. Uma obrigação e que a maior parte de nós trabalha por dois ou três motivos. A saber, ou porque se não trabalharmos não temos hipótese de nos sustentarmos, ou porque não sabemos como ocupar o tempo que ficaria livre se não fosse o caso de trabalharmos, ou porque o trabalho permite (para meia dúzia) acumular riqueza e riqueza é igual a ter poder, a poder dar ordens e a mandar nos outros, a forçá-los a cumprir os nossos desejos. Tenho pena daqueles que trabalham pelo primeiro motivo, desdém pelos que trabalham pelo segundo e um profundo desprezo pelos que trabalham pelo terceiro. 
É necessário trabalhar? Não, não é. Com os avanços da robótica e das inteligências artificiais, poucos de nós teriam de facto necessidade de trabalhar. Mas vendem-nos a ideia de que o trabalho é uma parte fundamental da vida. Nada de mais falso. Vendem-nos essa ideia para nos manterem na linha, para nos controlarem, são os tais que trabalham para acumular riqueza, não a redistribuírem e porem cangas nos outros, tais como a premissa de que o ócio é inimigo da virtude. Eis uma falácia muito útil, quando a verdade é diferente: é o ócio que permite que pensemos, é o ócio que faz com que nos apercebamos do quâo somos explorados, enganados, roubados. 
Mas não, o que nos vendem é que trabalhar dá saúde e faz crescer e que, como recompensa, tomem lá umas semanitas de férias por ano em sítios de merda, a apanhar aviões de merda, todos diferentes mas todos iguais, todos iguazinhos, todos com o mesmo telefone estúpido, todos formatados no mesmo paradigma de lixo-luxo, o de que trabalhar é muito bom e que, se trabalharmos muito e formos muito dedicados, até teremos direito a time-sharing em cancun, ibiza ou noutro sítio de merda qualquer. Claro está, a história da humanidade é feita de trabalho (quem fez as pirâmides, quem fez o empire state building, quem fez a hoover dam, quem fez as bombas atómicas e tal e quem com esses trabalhos alegre ou tristemente se escravizou). 
A questão é que o trabalho é diferenciado, uns fazem o trabalho de merda, outros controlam os que fazem o trabalho de merda e outros ainda dão as linhas gerais (são os empreendedores) e, como dão as "linhas gerais", ficam com todos os frutos, deixam umas migalhas escorrer pela cadeia de trabalho, palavra muito elucidativa, e gozam à fartazana. A história do trabalho é a história do roubo. Fomos tão bem ou tal mal-sucedidos nessa história, a qual tem um nome, chama-se capitalismo, que, muito em breve a nossa casa, o planeta, nos vai mandar à merda sem apelo nem agravo (just wait and see). 
Já eu, portanto, odeio trabalhar e só o faço porque me enquadro na categoria dos que trabalham pelo primeiro motivo que enunciei; trabalho porque, se não o fizer, boca, não tenho para comer, nem para comprar ao preço da uva mijona as roupas e a comida que os outros que ainda estão abaixo de mim produzem no bangladesh e afins. Não, eu gosto é de estudar e sei de ginjeira que, no mundo em que vivemos, fosse a riqueza distribuída de forma sã, poucos de nós teriam de trabalhar, a não ser trabalhar naquilo que de facto nos desse gozo. Por exemplo, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a terra, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a engenharia das coisas, gozo para o tipo que gosta, de facto, de tornar a vida dos outros menos desgastante, menos bangladeshiana. Mas tal não pode acontecer porque a acontecer a tal da cadeia do trabalho sofreria danos irreparáveis, nomeadamente para os que trabalham pelo gozo de impor aos outros a sua visão do mundo, o seu quero posso e mando, replicado pelos seus capatazes, os seus minions, até aos que, na verdade, fazem o trabalho duro e que, como é este o modelo, o que ambicionam, coitados, é querer, poder e mandar. 
Ora, já eu, eu gosto de ler, gosto de compor música, gosto de estudar, gosto de pintar, de fotografar, gosto de escrever, gosto de fazer uma data de coisas, que não são “produtivas” e, ó pasmo, até gosto de viver: de comer, de ter tempo para descansar, de ter tempo para fazer amor. O meu problema é que, dizem-me, os de cima, que isso não é trabalho, que isso são “frescuras”, que isso são passatempos de gente preguiçosa, que o que eu mereço é cacete, é cangas atrás de cangas, miséria e tal, tudo embrulhado no axioma geral do “vai mas é trabalhar, ó seu malandro!”. Pois bem, aqui chegado, gostaria de deixar um desafio aos três ou quatro estaloras que acabarão por ler este apontamentozeco. Se isto que eu escrevinhei numa horita e meia, após semanas, para não dizer anos de estudo não é trabalho, é o quê? Hum? Fico à aguardar os vossos prestimosos contributos.

Sunday, May 3, 2020

Vida de limpador de sanitas em tempos de covid

Falei hoje com um amigo que está preso no México, um dos melhores, uma gajo fabuloso, "preso" num paraíso isolado na costa do Pacífico há três meses. Agora, com o cansaço e ausência da família, já lhe apetece voltar mas, apoios para voltar? Sim, a embaixada diz que lhe paga o táxi até ao aeroporto. Ahahah. Preço do voo de regresso: 1000 biscas, era 250 biscas em Janeiro e ainda assim corre o risco de chegar à Cidade do México e ver o voo cancelado, estão a ver a coisa (Cidade do México, 20 milhões de habitantes, voo a preço de ouro cancelado)? Descer preços? Como aconselha um dos meus parceiros de negócio? Moi? Descer preços mas é a puta que pariu. Ainda vou tendo uma suada reserva de cash, do tempo em que andei, literalmente, a limpar sanitas, não estou no gozo, temos pena, foram muitas sanitas, na altura isso não implicava risco de vida (era só limpar merda alheia) e não estou na tanga, limpei sanitas para ninguém botar defeito, fui mulher a dias, gestor de sites, anfitrião, cozinheiro, relações públicas, etc, etc. E ai de quem se meter entre mim e a minha reserva de cash, cuidado comigo, que tenho tendência a agir como gato quando se encosta um gato à parede. Não, vou é subir preços, e vou subir a 100 ou até a 150 por cento. Quem quiser, quer, quem não quiser que vá passar férias onde lhe apetecer, tenho guita até ao final do ano, depois logo se vê. Se não tiver clientes, melhor ainda, aproveito o meu espaço para viver, para viver e não para limpar sanitas. Posso? Posso, repito, limpei muitas sanitas e estou disposto a voltar a fazê-lo, mas não se isso significa arriscar a vida.

Covid do dia


Criemos de cada gesto um renascer
Tornemos de cada flor um fascínio
De cada sorriso sonhemos um esplendor
De cada passo a dar troquemos um afeto
De cada verbo dito ou por dizer plantemos um amor.

Saturday, May 2, 2020

Cenas da vida no campo

Quando viemos para o campo trouxe tudo e mais alguma coisa mas, claro, o carregador do meu portátil ficou pela cidade e agora tenho que usar o da A. O chato é que tem um teclado diferente, lembram-se das máquinas de escrever Qwerty e das Azerty? Pois, para se lembrarem, precisavam de ter vivido numa outra época, uma época sem computadores, sem net, talvez uma época mais genuína. Mas, é mais ou menos bom, chato isto de ter de me habituar a um teclado diferente, porém, pelo menos, recebo cumprimentos do género: "és o meu adónis, imbecil, o meu deus supremo da beleza". Claro que, é na brincadeira, conquanto, brincadeira ou não, compense isto do pc ter um teclado de merda. Não que seja importante, não tenho muito para escrever, é divertido estar aqui e o tempo está a colaborar e o medo, sim, o medo desaparece, um tipo sai de calções, dá uns belos duns passeios, come melhor ainda, num jardim de sonho, amanhã uns belos duns mergulhos e até dá para ir tirando umas fotos, sem preocupação, em liberdade, de mãos livres.