Thursday, April 30, 2020

Sobre o tal e o tal


Não parece que foi ontem que estávamos no elevador da gloria a ouvir Radio macau e a sonhar com a cidade fantasma?

Hoje, de Berlin a Chicago, Istanbul a Ulaanbaatar, De Beijing a Moscovo

E até mesmo mais ao sul, De Addis Ababa a Brazilia- São quase todas, sem excepção- Cidades Fantasma.

Dizem-nos, ou se não dos dizem, deixam bem explicito que é tudo temporário. Um mero precalço na autoestrada veloz para um Armageddon ecologico que já não se demorava muito mas que por um breve momento ficou adiado.Não acho que vá ser bem assim.

Não sou daqueles que só veem o impossivel em tudo e nunca se desafiam; muito pelo contrário. Acho, não- sei, que é possível ter uma retomada rápida, basta ver o interessante caso da Coreia do Sul sem caso novos , a maneira como pais agiu em relação à crise do coronavirus, com precisão cirurgica, timing perfeito e apoiado em ciencia e não ideologia. Claro que isso envolveu um outcry da empresa estrangeira, tanto de esquerda como de direita como sendo um abuso do estado, um atentado à privacidade do individuo. Bom, deixo para outro dia a conversa sobre isso.

Claro que é possivel. O que acontece é que com rarissimas excepções, os paises não se conseguem unir e organisar de forma sistematica. É por isso que não acredito que isto logo vai passar ou que é só fazer um lockdownzinho que tudo volta logo ao norma. Não.

Para já é o que nos vendem, e pelo menos aqui ainda estão a ajudar a população com creditos e pagando 80% dos salarios de empregados temporariamente afastados.

A premissa do lockdown, é portanto engraçada- Aguentamos o rojão por 3 meses que isto depois vai passar mas é impossivel que "deep-down" eles não tenham consciencia que tudo vai mudar e este será de facto conhecido como 2020, o Ano do Covid.

Abrir a economia, sem um conserto pelo menos a nível Europeu de protocolos de controle comuns para toda a Europa,vai ser um caos.

O que eu vou ficar, bem sentado a observar, é o que é que os governos vão fazer quando passarem, 3-6 meses ou até um ano, com uma economia em depressão. Sabemos o que aconteceu na Grande Depressão. Tambem sabemos do New Deal do Rooselvelt. Nesta corrida contra o tempo haverá dois vencedores- Os paises que como a Coreia conseguiram controlar a epidemia de modo consistente e duraroiro e os paises que conseguirem organisar os seus meios de produção à volta da existencia a longo prazo do Coronavirus na comunidade.

Time will tell.


Life as is

We're leaving, today. Me, A and Fox. We're moving to the country, if the authorities don't stop us. We will be there by six. We've done everything. Everything, we have been spartan about the whole affair throughout the whole affair. Now, we move to the country. Please, don't stop us. We got 6.000 square meters there, and these are walled. Nobody has been there lately. I pray that we can get there. Until we meet again, Lúcio Ferro signing out.   

Por Portugal e São Jorge



Escrevi, algures nos idos de março, que, mais dia menos dia, o exército teria de sair. Acrescentei que, quando o fizesse, teria de o fazer preparado, teria de sair em último lugar, já com todas as lições aprendidas e totalmente protegido. O exército, como o concebo, é o garante, é a defesa da paz, por paradoxal que a afirmação pareça. São os homens e as mulheres que não brincam em serviço, que servem a Pátria e que, como se viu há 46 anos, se necessário, a defendem de si própria. Pois bem. Discreto, eficaz, o exército tem saído. E é tudo.    

Covid do dia


"The best way to predict the future is to create it."

Wednesday, April 29, 2020

Democrático mas é o caralho



Fartar-me-ia de rir, se não fosse trágico, quando passo por alguns "fazedores de opinião", que me afiançam que a doença é democrática: o covid é a coisa mais democrática do mundo. São trumpistas em potência e não ando com muita vontade de rir das asneiras de filhos da puta. Ai, mas que sim, que morre o rico, morre o pobre, morre a mulher, morre o homem, morre o velho, morre o novo, morre o que fuma, morre o que não fuma, estamos todos no mesmo barco. No mesmo barco é mas é o caralho. No mesmo barco ide com os porcos para uma ilha deserta, aproveitem e levem as bolsas e a especulação e os futures e os derivados e os offshores e a puta que vos pariu. Não estamos nada no mesmo barco, vão lá dizer essa merda aos favelados, aos que não têm para comer, aos que não têm educação ou informação para se defenderem, ou sequer espaço, porque o partilham com 10, 20 ou mais pessoas, ou saneamento básico, ou emprego, ou o caralho que os foda a todos. Democrático é a cona da vossa prima, como já dizia o outro que, entretanto, sanearam, espalhando mentiras, falsidades, atrás de falsidades, com a ajuda conveniente desta comunicação social “democrática”, paga pelos "democráticos" ou melhor ainda, pluralista dentro da narrativa única, para gaudio do pagode, basta ligar a Fox News e ver para crer o quão democrático o covid é. Puta que os pariu. Qual democracia, quando os panascas que contam e que mandam o que querem é abrir, abrir, abrir, salvar a economia, salvar a economia, crescimento, crescimento, dizem, refastelados, bem nutridos e fazem esta merda por Skype ou por Messenger,  tens de trabalhar mais, receber menos e se fores com o covid é a vida; claro, pois gostam muito, muito de democracia, mas isso é bom para os outros, para os que recolhem lixo, para os que vão para os hospitais, para os que têm de se meter ao caminho, para todos os que são forçados, friso são forçados, a correr riscos, para os pretos em áfrica, com a minúsculo, áfrica boa para sacar, petróleo em barda, diamantes, madeiras, exóticas, montes de merdas, porque para os defensores da dita “democracia” o melhor é estar na retaguarda, o melhor é recolher os dividendos, o melhor é abrir o futebol, pôr o porco do CR7, esse bandalho ou fantoche, já nem sei, a render aos milhões atrás de milhões, porque os “eleitores”, o que precisam, é de pontapé na bola, e de camisolas, de consolas, de merchandising, de comunicação social que os bombardeie com o sonho americano e o caralho a quatro embrulhado num poster que um puto parvo qualquer pendura no seu humilde tugúrio algures na Indonésia: “I love Cristiano Ronaldo, when I grow up I whant, assim mesmo, mal escrito porque não tem escola, não tem educação e o pai arreia na mãe, I whant to to be like him”. E sorrimos, nós os palhaços europeus que igualmente idolatramos os ronaldos de merda que nos vendem pela tv e pela net, e nas manhãs das rádios da moda, confortáveis, que bom, que democrático. Democrático é meter a autoeuropa a bulir, claro, a malta precisa de carros, de suvs, de descapotáveis, a gasóleo ou a gasolina, pouco importa, e o planeta que vá bardamerda, que é que é essa merda da Natureza? Que se foda a Natureza, que se fodam as renováveis, são caras e é tudo uma merda que não produz, eis a palavra mágica, que não produz "democracia”. É preciso ser democrático. É preciso a ryanair a bombar às paletes ou então os estados que salvem a ryanair e todas as outras, dos aviões às petrolíferas, das petrolíferas às carboníferas, das carboníferas às que escondem os impostos para a holanda, das que escondem para a holanda ás que produzem telefones maçã à velocidade da luz, que merda vem a ser essa dos verdadeiros democráticos serem privados dos dividendos? Hum? Foda-se, os dividendos, os dividendos, os hedge funds, os lucros, os lucros do iphone 2020, do g4, do g5, do g6, que merda é esta de privar a democracia de tudo isso? Ora, pá, razão tinha o Zé Mário, pó caralho com a vossa democracia, não fosse os chineses censurarem este e outros textos, vos garanto que, de longe, but by far, preferiria ser chinês, mil vezes uma economia planificada, mil vezes uma economia justa, mil vezes uma economia ecológica, mil vezes esses bandalhos "democráticos" encostados a uma parede e, depois, a democracia que lhes valhesse, encostados à parede, logo viam o que era bom para a tosse, logo viam o que seria o povo a falar. Mas, é uma ilusão. Vem aí muita merda. Muita. E é uma pena, temos aqui a oportunidade de refazer a sociedade, temos a oportunidade de reconstruir a Igualdade. Sim, a Igualdade, sem ela não há Liberdade. Lembrem-se disto: John Rawls ficou aquém, Amartya Sen aquém ficou, Harold Bloom ninguém sabe quem é, mas também ficou aquém. Puta que pariu, sabem quem os travou? Foram os "democráticos", pois claro.        

Covid do dia



"There is one great thing that you men will all be able to say after this war is over and you are home once again. You may be thankful that twenty years from now when you are sitting by the fireplace with your grandson on your knee and he asks you what you did in the great World War II, you won’t have to cough, shift him to the other knee and say, well, your granddaddy shovelled shit in Louisiana. No, Sir, you can look him straight in the eye and say: son, your granddaddy rode with the great Third Army and a son of a goddamned bitch named Georgie Patton!"

Tuesday, April 28, 2020

Exemplos que nos fazem "posicionar"



(…) Bom, já que chegámos até aqui, faça-me um favor, leia esta frase que escreveu, mas em voz alta. Sim, senhor Lúcio: «Estes são exemplos que nos fazem viver, pois sugerem-nos algo, que nos posicionam a mente, de certa forma limpa, no meio de toda a sujeira.» Não acha que há algo aqui que não bate certo? Senhor Lúcio, então, os exemplos do texto fazem com que a gente, desculpe, com que nós pensemos da forma mais correcta, mais limpa, menos suja! Pois, é mais ou menos isso, mas enfim; e, gramaticalmente, não há nada nesta frase que escreveu que o perturbe?... Tem razão, senhor Lúcio, não há concordância de número... Onde, meu caro, assuma-se como o homenzinho que é e que, se ainda a houver, vai entrar na faculdade com pelo menos 16 valores a Português!... Desculpe, senhor Lúcio, onde é que errei, senhor Lúcio?... Calma, meu rapaz, peço-lhe desculpa, é um erro que todos cometemos, desculpe o facto de, por vezes, ser tão cáustico consigo, é porque deposito imensas esperanças em si, mas tem de seguir os protocolos da linguagem,  da gramática e todos os outros. Continuemos, quero que me diga onde errou. No verbo, senhor Lúcio?... Não lhe vou dizer que sim ou que não. Explique-me, quero a sua explicação para esta burrada. Ó senhor Lúcio, eu acho, senhor Lúcio, que escrevi mal o tempo verbal, é isso? Bom, então, como é que se escreve o tempo verbal de forma correta, meu caro? Escreve-se assim, senhor Lúcio: «Estes são exemplos que nos fazem viver, pois sugerem-nos algo, posicionam-nos a mente, de alguma forma mais limpa, menos suja.» Muito melhor meu rapaz, muito melhor; como estamos de leituras: já leu o «Memorial do Convento»? Não tive tempo, senhor Lúcio, depois destes dias todos fechado a estudar estive com a minha namorada e ela acha que isto das explicações online é perder tempo, desculpe senhor Lúcio. Não teve tempo?!? No meio desta situação gravíssima, não teve tempo mas teve tempo para se pôr a jeito? Andava aos beijinhos, aos beijinhos?!? Senhor Lúcio… Cale-se, meu rapaz, não se enterre mais, queira deus que não tenha feito merda da grossa... Não, senhor Lúcio, não tenho nada e ela também não! Bom, sim, vamos partir do princípio de que sim, sabe quando é o seu exame, não sabe? Sei, o senhor Lúcio já disse-me. Já lhe disse, meu caro, já lhe disse, caramba, deixe-se de merdas, quer ou não entrar na faculdade? Quero, senhor Lúcio! E como é que se se escreve já lhe disse?... Diz-se «já me disse», senhor Lúcio. Muito bem. Aqui lhe envio o seu trabalho de casa. Acha que estou melhor, senhor Lúcio? Depende, essencialmente depende de si e... Tenho uma última pergunta antes de terminarmos a fazer-lhe: ouça lá, gosta da sua namorada?... Gosto, senhor Lúcio! É bonita? Pode falar à vontade, tudo o que aqui fala fica entre nós. É linda, linda demais senhor Lúcio, ela é da Filarmónica, foi Miss lá da terra e tudo e é minha! Tem sorte, tem sorte, mas nunca deixe as mulheres gerirem a sua vida, sim? O que quer dizer com isso, senhor Lúcio? Ouça lá, quando foi a última vez que «posicionou» a «mente» da sua namorada?... Posicionar a mente da minha namorada?, senhor Lúcio, eu não faço isso, não percebo. Você não posiciona mentes?... Não, senhor Lúcio, nem percebo o que isso quer dizer! Nesse caso, diga-me: porque é que escreveu que «estes são exemplos que nos fazem viver, pois sugerem-nos algo, que nos posiciona a mente»? Alguma vez se lembrou de posicionar uma mente que fosse? Como, senhor Lúcio? Responda! Que merdice vem a ser esta?... Está armado em intelectual da treta numa altura destas? Tem razão, senhor Lúcio. Ainda bem que percebe, e.... O que é que vai fazer? Acho que nunca mais vou «posicionar mentes» antes de saber fazê-lo, senhor Lúcio. E.... Que mais? Erros de concordância, senhor Lúcio, nunca mais vou dar erros de concordância. E, que mais? Vou ter cuidado, sempre que estou com outros, com os que gostam de posicionar mentes e todos os outros, tenho de ter mais cuidado. Nem mais, meu rapaz, acertou. Aqui tem um «extra» ao trabalho de casa, 140 palavras sobre como estar só e em simultâneo acompanhado, escreva bem e até à nossa próxima aula. (…)

Sunday, April 26, 2020

Covid's 11 steps



1 (January) – Jesus, what’s this shit happening in China? They close down a fucking city with more than 10 million people under strict lockdown? And I’m watching it as if it were the first episode of the walking dead? Remember that? When Rick Grimes wakes up alone in a hospital in the midst of the dead city of Atlanta, Georgia? These guys, these Chinese guys must mean business, they’re not dumb, they’re all about profit, why would they hurt their economy so severely if this shit weren’t serious? Oh, fuck it, I live in Europe, it’s a China thing, tomorrow is another day.
2  (February) –  Damn, they got the bug in the Alps, it’s on the move to Italy, but it’s cool, am a bit worried, but fuck it, just a few idiots got it, and for god’s sake, am not planning my summer holiday in Italy, by the by, it seems there’s a brilliant football match on cable starring Valencia and some other stupid team from Italy. Better watch that.
3  (mid-February) –  I need to have a talk with my best friend. The guy is brilliant but a tiny bit reckless. I know what, gonna go and meet and warn him. I got do that, probably the last time I will see him in the months to come, maybe am getting paranoid, but I wanna play it safe, got to warn him. Got to warn my mum and my dad and my girlfriend, too. Fuck this, they aren’t paying attention. Heck, my brother has already quarantined himself and his family, and he’s in the UK. His distress calls are getting more and more urgent.
4  (late February) – We’re fucked. I opened El Pais today. It don’t look good. Spain got the bug, too. It was the fucking football match. It’s hitting Italy hard, God, I open the Corriere Dela Serra and am flabbergasted. These fucks haven’t got a clue, but people are dying and the national healthcare service is going ballistic.
5 (early March) – This is it, I’m gonna need to take steps. The bug has arrived. In the north of Portugal. Damnation. I need to take steps. Am in Lisbon. Three guys in my household. Me, another Portuguese and a Brazilian. At dinner, I summon a war council. At first, they laugh, then they realise that I’m either going insane or that I’m being a dictator. Fuck them, this household belongs to me and it is no longer a paternal democracy, either they play it by my book of protocols, or they fucking leave.
6 (13th of March) – Shit is going to hell. Fucking manic rush to the supermarket today morning. People are going bonkers. The Brazilian is getting depressed by the hour. I and the other Portuguese suggest he leaves. He’s already ahead of us, will be living on the 15th to São Paulo, while there are still flights. I’m in charge of driving him to the airport. We’re all quite scared and gloomy; Christ, we’re friends, good friends. Maybe I should leave also, to my country house.  
7 (18th of March) – Fuck, fuck, fuck. Game on, the Brazilian is already gone. Now, it’s me and my Portuguese mate. A state of emergency has been declared by the President. It nullifies my chances of moving to the country. Mum is on the phone scared, dad just calls it folklore, but he’s safe, at least for the time being.
8 (20th of March) – We’re in complete lockdown. Am not working, my mate went to his office, got a pc, headset and will start working from home tomorrow. Fuck, we decide that from now on its communism in this household. He works, I cook and clean. None leaves. We’re gonna ride this shit trough. I will do the shopping, all protocols in place, all expenses will be shared.   
9 (mid-April) – This is very hard. I experience bouts of loneliness, I feel miserable. Had a few rough nights, just couldn’t sleep. Oddly, it’s him that keeps me going. Imagine that, a guy that everyone thought of as an idiot is manning up and keeping me, the allegedly strong one, afloat. We share everything, from food to drink, from political comment to the occasional joint.
10 (late-April) – I need to go. Soon. The state of emergency will be lifted in May. Add that to the exhaustion of the populace and to sunny weather and people will flock to the streets. There can be a second, most powerful wave. I need to go now. To the countryside with my girl and the dog. That’s Plan A. We’ve got to move swiftly,  it’s the only way to be sure and, possibly, happy.        

 11 (…) – 

Sonhar é avançar



Sonhei que tinha acordado num país em que tudo estava parado, não só o metro ou a carris, os transportes do Porto ou a travessia noturna do Sado ou sequer os estaleiros diurnos da Viana do Castelo infeliz. Sonhei que tinha acordado dum sonho de quarenta anos e que todas as pessoas tinham decidido parar de se lembrarem de serem pessoas, todas menos as crianças. Sonhei que as crianças saíam, que brincavam livremente, que tudo o resto estava parado, até os automóveis nas estradas, os aviões no ar e os navios no mar, os comboios nos carris, os metros nos túneis. Sonhei que não se via vivalma nas ruas do meu país que não fossem meninos e meninas, não é que os adultos tivessem desaparecido, apenas não se viam, uns dormiam, outros faziam a lida da casa, outros discutiam em silêncio, uns quantos faziam amor com as luzes apagadas, outros não faziam nada, mas nenhum saíra à rua, estavam todos abrigados nos seus lares, entre paredes, nos seus buracos, nos seus castelos e palácios, ou nos seus acidentados vãos de escada, nas suas irrevogáveis camas de cartão. Sonhei o meu país adormecido - por fim - o meu país sonhando-se de novo, pensando, esclarecido, o meu país despertando de um logro, sonolento ainda, mas já desperto do pesadelo, o meu país piscando os olhos, como quando a luz nos fere no inverno, sonhei melros chilreando nas árvores e estores de persianas por descerrar. Sonhei que lá fora as crianças corriam, que pulavam, brincavam, à solta, na rua, pela calçada, nos barrancos, livres, em todos os lugares, pelos jardins, até mesmo pelas escarpas, em baldios, aos escorregas, nas praias, de Valença ao Algarve, de Mendes Fernão a Gonçalo da Maia, de Fernando Campos a Luíza Vaz; sonhei crianças que descobriam, sonhei confiança, bravura – sonhei-a nos adultos, vi-os lavados de fresco, sonhei querer, vi fé, quis ilusão, agarrei vontade, sonhei pouco medo e sonhei alguma saudade, sonhei esperança, sonhei mar. Sonhei sim, sonhei mar, mar revolto de ondas, de remoinhos, mar de arrasar marés altas, vivas e vazas, sonhei a nação, sonhei a igualdade, sonhei a liberdade, sonhei a fraternidade e sonhei a solidariedade. Então, ao despertar do meu sonho, constatando que tudo não passara de isso mesmo, de um sonho, que nada ou quase nada tinha mudado, que fora apenas um sonho, um sonho estranho, como todos os outros, percebi também, como dizia o Gedeão, que, por pouco que seja, “sempre que um homem sonha o mundo pula e avança”.

Friday, April 24, 2020

Riscos e recompensas





Cometi uma infração ontem. Um mês e meio é muito tempo. Demasiado. De carro estávamos a 10 minutos um do outro. Os dois cansados deste confinamento que nos obrigava à prossecução de amores platónicos. Pronto, cometi a infração e mudei-me de armas e bagagens. Saí de um bairro lisboeta relativamente fácil de gerir e vim-me enfiar no inferno de Campo de Ourique. Só hoje de manhã, quando levei a nossa cadela a passear, me apercebi dos riscos que isto aqui apresenta. Dezenas de pessoas nas ruas, a maior parte sem máscaras, automóveis a rolar, pessoas a parar e a dirigir cumprimentos à Fox. Eu, de máscara, e ainda bem pois sorriso mais amarelo do que o meu não poderia ser. Melhor de máscara, assim ninguém viu. Gente aos magotes. No pingo doce, sem qualquer distância, para aí umas 30 pessoas à porta. No minipreço, idem. Passei para o meio da estrada, eu e a Fox, os carros lá tiveram que nos dar procedência. Fui à mercearia e ainda tive de driblar uma série de gente. A Fox deixei-a presa numa daquelas coisas vermelhas, uma boca de incêndio. Lá dentro, um inferno, corredores minúsculos e pelo menos cinco pessoas a deambular. Voltei para casa. Despi-me à porta. Fui lavar as mãos, lavei a máscara, voltei para trás e lavei os pés da Fox. A roupa foi toda para lavar. Agora estou aqui. Tive de preparar um whisky soda, bem sei que é cedo, mas estava com os nervos à flor da pele. Sensações contraditórias. Vim aqui porque não suportava mais estar longe da A e da Fox. Mas o que vim eu fazer, ao enfiar-me numa zona com esta densidade populacional? A escolha foi minha. Foi nossa. A única coisa a fazer é ser ainda mais draconiano nos protocolos de saída e de entrada. Vai correr bem. Estou com a A e estou com a Fox. Só pode correr bem. As fotos são da nossa varanda, felizmente temos este pátio interior que nos afasta de tudo. Um bom dia, um excelente fim de semana.

Thursday, April 23, 2020

De mãos e pés dados



Tocar-te e não te poder tocar. Sentir-te e não te poder sentir. Ver-te e não te poder ver. Ouvir-te e não te poder escutar. A ausência fere as palavras. E as palavras acentuam a ausência. A alquimia da voz faz-se alquimia do corpo. À falta de melhor. A alquimia do corpo faz-se alquimia da voz. E o sentido desta carta perde-se. Num devaneio risível. Numa escrita ridícula. É uma carta a um amor. E é o meu amor numa carta. São palavras sem graça. É a graça sem palavras… Que é o que sobra. E o que sobra é do tamanho do Universo. E eu não o sei escrever. Não sei como se escrever infinito. O infinito do que quero dizer é vasto demais para palavras. O que sinto não se diz – sente-se. E o que se sente é dito sem precisar de o ser. Porque o que sinto são as minhas mãos tuas e as tuas mãos minhas. São os pés entrelaçados. O que sinto só as nossas mãos, os nossos pés, o nosso estar em nós, à sós, o pode dizer.

Wednesday, April 22, 2020

Amanhã, sei-o bem, será outro dia



Acordo, de manhã cedo, sempre fui early bird. Não sei porquê, mas gosto muito de acordar cedo. É muito raro acordar depois das oito, mesmo quando me deito tarde. Gosto de fazer tudo o que é importante de manhã. Acordo com energia, revigorado, há sempre uma coisa que me apetece fazer mais do que outras, mas atualmente realizar essa rotina é complexo e então canalizo a energia para outras atividades. A escrita é uma delas. Ligar a CNN e ver e ouvir as últimas bacoradas do porco americano também. Às nove vai o pequeno-almoço. Uma torrada com manteiga e chá. É quando, por norma, aterro e olho para o dia que tenho pela frente. Antes, era a hora em que ia tomar duche e me aperaltava, agora não, não tomo duche de manhã, só ao fim do dia e aperalto-me antes do jantar, já que não vou sair de casa, para quê tomar duche de manhã?
Às dez preparo e sorvo um café, fumo um cigarro. Se o tempo colabora, vou para a varanda e deixo-me estar, uns 10 minutos, a apreciar os tímidos raios de sol da Primavera. Se o tempo não colabora, fico pela cozinha, lavo a loiça que sobrou do jantar anterior. Depois volto para o quarto. O meu quarto é impecável, é um quarto-estúdio. Tem tudo, a cama, uma secretária, com o pc, uma televisão king size, um sofá confortável. Passo os olhos pela Fox News, mas tem de ser com conta, peso e medida, porque vomitar o pequeno-almoço não é opção. O café começa a fazer efeito e passo para a casa de banho. Regresso ao quarto-estúdio. Será que hoje tenho de sair? Obviamente que não, se hoje tivesse de sair teria preparado a saída no dia anterior.
E bem, desligo a TV. Telefone comigo. O primeiro é para o capataz do meu negócio, o único empregado a quem ainda pago. Senhor Aparício, como estão as coisas hoje? Está tudo bem, senhor Lúcio, dei um desbaste na eira e já florescem as rosas que me pediu para plantar. E amigos do alheio, senhor Aparício? Veja-me lá isso, eles andam aí. Fique descansado senhor Lúcio, passo todos os dias, uma vez de manhã e outra à noite, quando vou passear o cão. Desligo e passo para a minha mãe. Bom dia mãe, como estás? Olha, filho, estou no carro, tenho que ir ao Recheio e depois quero passar pela farmácia. Sinto um calafrio, mas emprego o tom de voz mais sereno e respondo que ok, ok, então quando chegares a casa conta coisas. Então, passo para o meu amor. Olá gatinha, como está a correr? Já fiz duas vídeo calls, hoje, o escritório está a ferver, prejuízos na Áustria e na Alemanha, vai ser um dia daqueles! Falamos mais um pouco, falamos em estar juntos, quem sabe em casa dela, que se quilhe a quarentena. Desligamos sem concluirmos. Ligo o pc e vou à caixa online. Já sabia o que ia encontrar e continua a não ser agradável. Vou precisar de um bailout, mas isso já eu sabia e há só uma pessoa que me pode financiar e isso eu também já sabia mas estou a morder o tempo, quando for a hora, lá terei de atirar o barro contra a parede e dizer-lhe: mãe, preciso de um bailout.
São quase 11 e não tenho muito mais para fazer. Vou varrer, varro o quarto-estúdio, o corredor e a cozinha. A casa de banho ainda a varri ontem, não precisa. Está quase na hora de almoço. Vou ler os blogues. Tenho uma lista de leitura e até no antes dedicava sempre uma porçãozita da manhã aos blogues. Passo também pelo The Guardian, pela Vanity Fair e pela The Atlantic. Os media portugueses não me interessam, cambada de medíocres quando não de vendidos. E pronto, é meio dia. Não chove, não faz sol e não posso sair de casa. Começo a fazer planos para o jantar. Hum. Bifinhos de peru com natas, três queijos, cogumelos, batatas salteadas, salada de cenoura e para a sobremesa fruta, ou pera rocha ou tangerina.
Mas ainda é cedo. Vou ao Mr Piracy. Escolho um filme, por exemplo A Plataforma, ou Der Hauptman, ou T34, cada vez gosto menos de Hollywood, prefiro cinema europeu, muito mais genuíno, muito menos american stupid dream. São duas da tarde. Não almoço, mas petisco. E agora? Agora é chato. Preparo um whisky soda e acendo um cigarro. Dá-me para pensar nela e nos planos, a curto, a médio e a longo prazo. O scotch sabe-me bem e relaxa-me. Só tenho de me aguentar até às sete. Preparo mais um whisky soda e abro um livro, o Monte dos Vendavais. Leio umas trinta páginas. Cago e vou buscar banda desenhada, Corto Maltese, Sob o Signo do Capricórnio. Que mestria a do Pratt, que coisa mais linda, mais bem pensada, mais bem desenhada e mais bem escrita.
Fecho os olhos e passo pelas brasas. Desperto e ligo a TV, olha, a telescola está de regresso na RTP Memória, até que é giro. Faço zapping para a SICN. Deixa lá ver a contabilidade do dia. Porreiro, só mais 30 mortos e 750 casos de infetados. A coisa vai. Que horas são agora? Já perdi a conta mas está a aproximar-se a hora do duche, de vestir de lavado e de começar a preparar o jantar. Os tais bifinhos com natas e a saladinha de cenoura, que olhos mais bonitos do que os meus não há e um homem que é homem tem de se desforrar com alguma coisa. Vinho tinto do bom a acompanhar. Upa, já estou meio grogue e mais redondo, mas pronto, diz que passa um filme interessante no Euro Chanel.  Deito-me no sofá. Ponho-me a ver, os olhos começam a cerrar. Vejo enquanto posso. Quando estou prestes a adormecer levanto-me, dispo-me e deito-me. Sorrio, embrulhado nos lençóis a pensar nela e adormeço, a pensar que amanhã, amanhã será outro dia.

Tuesday, April 21, 2020

No antes, no durante e no depois



(...) Olhá lá, que merda vem a ser essa com aquela gaja? Sabes que te cheiro o perfume de fêmea à distância, que é que andas a fazer?... Amor, eu só tenho olhos para ti e numa situação destas, um tipo como eu tem de se ocupar, fazer amizades, só isso…. É, fazeres amizades, pulha, ocupares-te com essa cabra que te anda a dar a volta ao miolo, eu bem sei como gostas de ocupar-te, aliás, parece-me que precisas de ser ocupado, deixa que no dois de maio já te vou ocupar… A sério, fofinha? Vais ocupar-te de mim? Eu quero que me ocupes, sabes que és tudo para mim e ela é nada… Outra vez a mesma conversa? Outra vez essa mulher irrequieta, como eu sou? Cala-te cabrão, deve ter idade para ser tua mãe e tu tens-me a mim, chega, estou farta!... Como, tenho-te a ti amor? Nos últimos dois meses vi-te por skype e presencialmente anteontem 10 minutos e a dois metros de distância, não nos tocamos há um mês e meio! Desculpa, só não quero que te metas mais com essa gaja. Essa agora, eu pergunto-te acerca dos gajos com quem tu te metes?... Não desconverses, sinto que estás a gostar dela, estás a esquecer-me, mas tu és o meu homem. E tu és a minha mulher. Nada mudou. Não te esqueças disso, não quero essa gaja na nossa vida, não, não estava no antes, não quero que fique no depois. (...)    

Out of time


Out the window winds the april spring.
It sings a tune of long and sorrow sadly splinter.
It flickers through the looking glass as knives, it chills.
In its whisper I can feel the hallow, I listen to the void.
I can hear the fine whispered line of the Lister.
With a grin I read its deadly sober tune.
It looks simple and weirdly sublime:
It purely states that we are - completely -
Out of time.

Monday, April 20, 2020

Com o covid ao ralenti



(…) Deixei Chelas para trás, vi-me de regresso ao asfalto, meti a quarta, puxei por ela, como se fosse uma gaja, uma das difíceis, puxando-a todinha, e, só então, só então fiz saltar a quinta, tric, trac, a esgalhar o motor do R7 de fininho. Caramba, contado nem se acredita, quase nem sentia a estrada; nunca me passara pela cabeça que o R7, um carro com 20 anos, ainda pudesse chegar aos 180! Quase de imediato, ao tomar noção, levantei o pé, convinha não abusar, deixei-me ir, a 150, 160. A luz laranja que continuara acesa no indicador do combustível apagou-se, para logo começar a piscar, muito depressa, demasiado depressa. Desengatei e deixei-me ir, a deslizar, sem tracção, ainda a 170, aproveitando o asfalto uniforme do caminho e a última longa recta antes da próxima curva, confiante, sabendo que, em última análise, nunca mais passaria por aquela estrada sem um trejeito de emoção e que, se chegasse a velho, os meus netos por certo apreciariam quando à lareira lhes contasse o episódio. Ao fundo da recta embraiei a quarta, negoceie a curva a abrir em redução, passei por uma placa que indicava a aldeia da «Igreja Nova» e, bingo, lá estava ela, que Deus salvasse a rainha! Era a British Petroleum! Um pouco antes da rotunda, que dava acesso ao nó que me levaria a casa, avistara o placard luminoso, verde e amarelo, de uma BP, de uma BP 24 horas!
Ao ralenti, saí da minha faixa e enfiei na da estação de serviço, já o motor do R7 tossicava, soluçando, de forma alarmante; no sítio que me convinha, com um toque no travão, assertivo, imobilizei-o, rodei a chave e silenciei o bicho, seguro de que o meu timing fora perfeito. Reanimado, soltei o cinto de segurança, saltei para fora do R7, calcei as luvas, saquei da pistola do diesel, a toque de cotovelo fiz voar a tampa exterior do depósito da gasosa, rodei a interior, abri e comecei a despejar quilómetros para dentro do depósito. O pior é que este parecia não ter fundo, embora eu ainda tivesse tempo, ou pelo menos era nisso que desejava acreditar. Virando-me, contemplei a «box» onde se efectuava o pagamento de combustível. No interior, vislumbrei um funcionário, um miúdo, parecia ensonado. Sempre a despejar quilómetros para o depósito do R7, com a mão livre esbracejei na direcção dele, mas nada feito, parecia dormitar. Esbracejei de novo e acompanhei a minha bizarra mímica com uns berros de «Eh, eh, pá! Aqui, aqui!, anda cá! Estás com medo? Depressa pá!» Por fim, despertou e pôs-se a contemplar-me, do interior da pretensa segurança da «box», desconfiado. Que aquele tarefeiro de merda se fodesse, cismei, já tinha quarenta litros no depósito, continuava a contar e achei que bastava, pendurei a pistola, fechei o depósito, entrei no R7, tirei e deitei pela janela as luvas ao chão.
Claro que, para chatear, o R7 não pegava, recusava colaborar. O miúdo da BP saíra, acicatado, da «box» e corria para mim, totalmente despreparado, vociferando, batendo no capot do R7: «Ei, tem de pagar, tem de pagar!». Com uma última viragem do pulso rodei à chave e num estampido ensurdecedor lá peguei o R7. Engatei a primeira, dei gás, roufenho, mamutesco, em ponto de embraiagem, fazendo o puto assustar-se e recuar, quase lhe engolindo as pernas no primeiro espasmo do R7, com a luz das ópticas, que resolvi ligar, nos máximos a encandeá-lo. Vendo-o amerdejado, uma mistura de medo, de amarelo, e de algo de que por certo ele se envergonharia muito em breve, pisei a pé fundo, em segunda, enquanto descia uma fresta do vidro e o interrogava, abrupto: «Telemóvel, tens telemóvel?» Estacou, atónito, percebi que ia para balbuciar «que não», que «não tinha», mas antecipei-me e, marcando o rodado da borracha dos pneus no macadame da BP, abri dali para fora, saudando-o ainda pela fresta da janela: «Feliz Covid, feliz covid, manda a conta à bófia!» (…)

Sunday, April 19, 2020

Transgredir em tempos de covid



(…) Tentas-me. Muito. Vacilo. Vacilei. Mas decidi-me. Hoje não posso. É impossível, seria uma transgressão total. E não posso também porque terei cá em casa um amigo, direto da quarentena. O que coloca o meu comentário ou naco de informação no “vou mas volto” com o nome dele, de amigo do gatinho, de blackbird sem asa. É o meu melhor amigo. Consta de textos meus. Como este. A cena do museu de Arte Antiga no antes foi com ele que se passou. É uma pessoa muito especial. Mesmo. Amigo está com amigo. Até porque amanhã ele irá ter com uma paixão e assim dorme em Lisboa e não corre mais riscos. A nós também nos vai fazer bem a separação. Alimentar o desejo. A tesão. A vontade. Eu tenho. Muita. Mexes comigo. Sinto-me orgulhoso de te conhecer. De ter sentido aquilo que és. De ter pensado que serias alguém a conhecer. E de me ter dedicado a isso. Não coloquei comentários no teu blogue à toa. Coloquei para ser seguido. Para que me seguisses. E assim o fizeste. Sei que há quem o faça, claro, pelos motivos mais fúteis, todos gostamos de ser seguidos e lidos e faz bem ao ego. Mas eu tinha já segundas intenções em relação ti, andava a estudar-te há meses. Pareceste-me interessante. E és. Ontem nem me lembrei de sexo. Poderia tê-lo feito. Mas não tive essa necessidade. Estava cansado. Com sono. Ainda que na maioria das vezes, no antes, ainda que cansado e com sono cama ansiasse. Mas não o fiz porque provavelmente sentia-me preenchido. Satisfeito. Orgasmos... são bons sim. Mas não são tudo. Como te disse: tive o que necessitava, vi em ti carinho, vi beijos, vi o toque que não pudemos dar. Ainda assim, chegaste, viste e venceste. E vencemos os dois. Foi bom. E é bom saber-te a querer-me. Como te quero também. Mas esta dia é para a amizade. Ainda que eu possa estar online. Quero-te, sou teu e és minha. (…)

A segunda linha da frente


Neste combate, há mais do que uma linha da frente. Há a linha da frente de quem trata os doentes, de quem fiscaliza os outros, de quem fornece comida, água, luz, gás, internet e de quem recolhe o lixo de todos. Por falar nisso, não bastam palmas, essa malta tem de ter mais direitos e mais dinheiro. Essa é a primeira linha da frente.
A segunda linha é outra. É a do combate aos trumpistas e aos bolsoneros. Desenganem-se os que julgam que é tudo solidariedade, um por todos e todos por um. Há legiões atrás de legiões de imbecis. Há os líderes desses imbecis. E é contra esses que é preciso lutar, se no pós covid quisermos uma sociedade mais justa e equitativa.
É preciso esfregar-lhes na cara que sem pessoas não há economia, é preciso dizer a toda a gente que este vírus é tudo menos democrático, que ataca muito mais os pobres do que os ricos. Isso é um facto, consultem as estatísticas se duvidam. Nada tenho contra a riqueza, mas riqueza de ócio e acima de tudo riqueza à trump e a bolsonero é uma merda, esses filhos da puta estão-se nas tintas para os outros, estão-se nas tintas para o planeta, para eles só conta o poder, o mando, e eles e as suas legiões de idiotas úteis estão a armar-se para o day after, eles querem impor as suas narrativas darwinistas, eles querem mais injustiça, mais riqueza para si próprios, eles querem mais poder para os homens fortes, querem mais deus no meio do caos, querem cagar no 25 de abril, nos 25 de abril, que ironicamente também foram feitos para que eles os possam denegrir, aviltar. 
Querem mandar à merda o trabalho, querem que trabalhemos por tuta e meia e que corramos todos os riscos, inclusive o da morte, querem viver nos seus bunkers luxuosos e previamente higienizados pelos proletas que desprezam, e que morram, porque no seu entendimento não fazem falta alguma, até o dia, até o dia. Pois bem, o meu trabalho é este, é denunciá-los. É recusá-los, é alertar os que precisam de ser alertados. É causar brechas nas suas legiões de analfabrutos, é trazer quem os apoia para o nosso campo. Mais não posso fazer, mas enquanto puder, faço o que posso.

Saturday, April 18, 2020

Do flerte em tempos de covid




(…) Joana agradece o beijinho e manda outro. Lúcio tinha medo de dizer barbaridades tais como "Joana tem 53 anos"? Mas teria acertado. Joana é, no entanto, muito boa rapariga. Tem duas licenciaturas (a primeira em comunicação social), é filha de boas famílias - gerações de professores e de profissionais liberais, era divorciada no BI mas agora tem CC onde isso já não se diz. Teve, entretanto, um namorado que foi a luz e também o negrume da sua vida, mas já terá ultrapassado o mal que ele lhe fez. Vive em Lx e arrenda um quarto a uma amiga, para compor o orçamento e para não se sentir demasiado só. Trabalhava, dando aulas, explicações, fazendo traduções e ajudando por vezes uma outra amiga que tinha uma agência de design (tudo isso está fechado e agora Joana passa o tempo só, a flertar pela net com o Lúcio). Interessa-se muito pela expressão artística e sobretudo literária. Gosta de beber (bebe demais). Gosta de política, sobretudo por causa das falácias que nela encontra. Porém, vive o que se está a passar em Portugal e no mundo com uma profunda sensação de apreensão e então resolveu que nunca mais voltará a escrever sobre civismo ou sobre participação nos assuntos do social-economismo. Em termos da sua orientação ideológica, Joana está na área da Esquerda ou da Esquerda moderada (é que continua a apreciar prazeres pequeno-burgueses). Gosta muito de rir. E não poucas vezes de si mesma. Gosta de ver filmes (que sorte) em dias negros como estes, de pantufas e enroscadinha no sofá. Como não tem ninguém com quem partilhar o sofá, como já viu filmes a mais, está em limpezas, de faxina ao seu palácio, que é lindo mas demasiado grande, demasiado vazio. E, sim, parece que é quase tudo. Ah! Espera, não, Joana acha Lúcio interessante, acha-o atrevido e até um pouco parvinho, mas interessante na mesma e deseja conhecer mais dele, será Joana correspondida?...(…)

Friday, April 17, 2020

Birds of a feather


Birds we are and fly is our bid
You are my dart I am your mid
I am your smart you are my lid
You are my chart I am your grid.
Birds we are and fly is our breed
You are my spear I am your feed
I am your fear you are my mead
You are my deer I am your bleed.
Birds we are and to fly is our cache
You are my channel I am your clash
I am your funnel you are my flesh
You are my runner_ I am your dash.
Birds of a feather can fly or die, can love or hide
Shall we bite time, or shall I become_ Thy bride?...



O vírus somos nós



À medida que o tempo vai passando, nesta primavera alucinante, tenho estado muito tempo fechado em mim mesmo e isso tem-me dado para pensar. Algo sobre o qual reflito é na pausa extremamente benéfica que a crise atual trouxe ao nosso planeta. Os níveis de poluição atmosférica desceram de forma brutal, animais que tínhamos banido e que em muitos casos estavam já em vias de extinção, regressam, agora que o ser humano se fechou em casa. Inegavelmente, isto é muito bom e o planeta agradece.
No entanto, o que me preocupa é o day after, é quando regressarmos à nossa balbúrdia ecológica, com milhares de aviões nos céus, milhões de automóveis em terra e não sei quantos navios (alguns deles como os de cruzeiro altamente poluentes) a cruzarem os oceanos. Parece-me quase óbvio que a nossa presente organização mundial a nível global – o capitalismo desenfreado e muitas vezes selvagem, como nos EUA e com os belíssimos resultados que agora apresenta, não é viável e que, a manter-se, haverá mais e mais corana vírus, mais e mais destruição do que aquela que no espaço infinitesimal de um século temos infligido à Terra. Não podemos continuar a tratar o planeta como uma fonte inesgotável de recursos para o “crescimento” económico. O maldito crescimento económico da sociedade de consumo em que os produtos já vêm das fábricas preparados para deixarem de funcionar num curto espaço de tempo, de modo a manter o “crescimento”. Uma sociedade em que “ter” é a igual a “ser”. 
Não podemos continuar a desejar desenfreadamente a roupa mais da moda, o carro mais caro, o barco mais rápido, a viagem de avião para aqui e para acolá, etc, etc. E, acima de tudo, não podemos continuar num sistema socioeconómico em que vigora a lei do cada um por si e deus por todos. De igual modo, a riqueza não pode continuar concentrada em meia dúzia de indivíduos, quando a larga maioria vive de migalhas e uma outra enorme percentagem nem tem para comer. Entendamo-nos, não é o corona que é o vírus, o vírus é a (des)organização social e económica que endeusamos, é este capitalismo onde tudo é liberdade (dizem), mas onde não há nem traço de igualdade. 
A questão, também aqui é simples: de que servem liberdades formais se não há liberdade para comer, ou para ter habitação, ou ensino, ou saúde? Não serve para nada, porque sem igualdade não há liberdade. Assim sendo, é necessário começar a ponderar formas de taxação severa das grandes fortunas. É necessário colocar travões rigorosos à especulação financeira (será admissível que um idiota engravatado faça balúrdios com hedge funds, futures e afins, em cima da miséria de milhões, como em 2008?). Assim sendo, é necessário acabar com o cancro das offshores (só por isso a Holanda deveria ser expulsa da UE). É necessário exigir serviços públicos de qualidade (e não atirar para o ar que isso são “gorduras do Estado", boas para privatizar pelos amigos). Por fim mas não menos decisivo, é necessária uma política ambiental extremamente severa, uma política ambiental que promova energias “limpas”, minimize as emissões de CO2 e que impeça a destruição da Amazónia, dos lagos, dos rios e dos mares. Se tal não for feito, lamento mas estou em crer que o nosso futuro e o dos nossos filhos será curto, mais curto do que se julga. A questão é simples: não é o corona que é o vírus, ele representa apenas (mais) um sintoma. O vírus somos nós.