Isto de um gajo passar cinco meses sem entrar em algumas das suas casas de campo (que eram também o modo de vida que o sustentava no pré-covid) é complexo. A coisa é que as casas estão sujas, estão cheias de pó, cheias de insetos mortos e cheias de bafio. No entanto, e eis o paradoxo, senti-me muito bem, as casas estão limpas, estão virginalmente limpas!
Sunday, May 31, 2020
Paradoxo covidiano
Isto de um gajo passar cinco meses sem entrar em algumas das suas casas de campo (que eram também o modo de vida que o sustentava no pré-covid) é complexo. A coisa é que as casas estão sujas, estão cheias de pó, cheias de insetos mortos e cheias de bafio. No entanto, e eis o paradoxo, senti-me muito bem, as casas estão limpas, estão virginalmente limpas!
Thursday, May 28, 2020
Covid do dia
Gostas de aviões? Eu, nem por isso. Desglobalizar, curtes?
O homem vestido de preto
Numa noite amena de Janeiro de 2020, franqueou a porta principal do restaurante Adega dos Passarinhos, sito à rua Luís de Sá Pessoa, n.º 17, R/C, Alta de Lisboa, aliás, um dos meus poisos habituais ainda e sempre que me desloco à capital, um homem vestido de preto, um homem que trazia arrastada atrás de si uma sombra misteriosa, inteiramente cerzida de desolação e negrume.
Era um homem de gestos bruscos embora firmes, cabelos negros se bem que esbranquiçados e via com uns olhos frios, que nem por isso deixavam de ser brilhantes, de cor indextinta.
Paradoxalmente, era um homem frio mas ofuscante; um homem totalmente desconhecido de todos os outros comensais, um homem com rugas vincadas na testa e as unhas sujas que nem sachos, numas mãos que, a um observador atento, se adivinhavam calejadas por décadas e décadas de labutas dolorosas nos cantos mais ínvios da existência planetária, um homem que procurava vingança; um homem com umas mãos que, para os poucos de nós que o conhecíamos e o fitávamos de revés – como quem tem vergonha dos seus próprios dedos, ou pavor de que os outros vissem a nu a crueldade que os dedos de todos emanava - mais pareciam garras descanardas do que mãos de gente.
Eu, cliente da casa fazia uns dez anos e à semelhança dos mais antigos criados de mesa do estabelecimento, (trata‐se de uma tasca que data de 1874 e que albergou em outros tempos memoráveis tertúlias do grupo dos Vencidos da Vida) entre os quais se contavam o sempre afável senhor António Gil, o insofismável apesar da careca senhor Paulo Gomes e o nunca por demais incontornável senhor Teixeira, reconhecê‐mo‐lo de imediato.
Nenhum, de nós, no entanto, deu mostras de se lembrar do homem vestido de preto que daquela maneira invadira, bruscamente, abruptamente (porque não dizê‐lo), uma noite que até essa altura se anunciara perfeitamente legislada na graça de São Turismo e do bendito clima temperado, uma noite tranquila na benesse dos cinco maravedis que acabavam de me pagar.
Enfim, uma noite de Domingo, morna e aprazível, como eram e sempre foram que eu me recorde todas as noites de Domingo no mês de Janeiro (Interrompo esta narrativa para vos clarificar alguns pontos que, sendo do meu interesse, também poderão um dia vir a ser do vosso: necessário se torna dizer‐vos que o homem vestido de preto era persona non grata da casa, muito embora, pela parte que me toca, e estou cem por cento seguro, pela parte que toca desde os empregados, passando pelas sopeiras da cozinha até à gerência, ninguém dos que ali o conheciam tivesse dele razão de queixa, bem pelo contrário, havíamos sido poupados). Sempre, comentava-se, vinha no mês de Janeiro, pagava as suas contas e resolvia discretamente os seus assuntos particulares, com o superavit de generosas gorjetas e jamais perdera a compostura, apesar de ser seu hábito levar muitos em demasia.
Enfim, uma noite de Domingo, morna e aprazível, como eram e sempre foram que eu me recorde todas as noites de Domingo no mês de Janeiro (Interrompo esta narrativa para vos clarificar alguns pontos que, sendo do meu interesse, também poderão um dia vir a ser do vosso: necessário se torna dizer‐vos que o homem vestido de preto era persona non grata da casa, muito embora, pela parte que me toca, e estou cem por cento seguro, pela parte que toca desde os empregados, passando pelas sopeiras da cozinha até à gerência, ninguém dos que ali o conheciam tivesse dele razão de queixa, bem pelo contrário, havíamos sido poupados). Sempre, comentava-se, vinha no mês de Janeiro, pagava as suas contas e resolvia discretamente os seus assuntos particulares, com o superavit de generosas gorjetas e jamais perdera a compostura, apesar de ser seu hábito levar muitos em demasia.
Por isso, era persona non grata, vá‐se lá saber o motivo real, e essa certeza bastava para que fingíssemos ignorá‐lo, desdenhosamente. Para além do mais, fizera pelo menos seis anos que ninguém lhe pusera a vista em cima; tinha‐se, uma bela noite de Agosto, assim como chegara, pura e simplesmente volatilizado).
Então, o homem com a gabardina negra de couro e as calças pretas de flanela, centrou‐se no lobby de entrada da Adega dos Passarinhos, as pernas afastadas e os pés bem fincados no chão, como um tipo que nada tem a perder armado em duro, como um tipo que desafia o Mundo inteiro sem a ousadia ou o descaramento de o dizer claramente, e aguardou, impávido, soberano, que alguém dele se ocupasse. Escusado será dizer que todos permanecemos tensos, imobilizados.
Coube ao bom do velho Teixeira fazer‐lhe as honras da casa; num aceno que guardava para os melhores clientes, inquiriu ao homem vestido de preto se desejava jantar ou se vinha por outro motivo.
O homem vestido de preto, reparando melancólico que uma mosca acabara de falecer, como que por acaso electrocutada no moderníssimo aparelhómetro anti‐insectos que o dono da Adega mandara instalar, acenou afirmativamente e, sem dizer palavra, despiu a gabardina, confiou‐a ao pressuroso do Teixeira e foi sentar‐se na mesa do canto, a única mesa do canto de onde se podia ver tudo e onde quase ninguém se sentava. Estranhei eu por nunca me ter lembrado disso. Ao contrário da primeira vez em que o vira, quando comera em molho de escabeche, o homem vestido de preto pediu desta feita uma dose de entremeada de porco e um jarro de vinho tinto das américas.
O homem vestido de preto, reparando melancólico que uma mosca acabara de falecer, como que por acaso electrocutada no moderníssimo aparelhómetro anti‐insectos que o dono da Adega mandara instalar, acenou afirmativamente e, sem dizer palavra, despiu a gabardina, confiou‐a ao pressuroso do Teixeira e foi sentar‐se na mesa do canto, a única mesa do canto de onde se podia ver tudo e onde quase ninguém se sentava. Estranhei eu por nunca me ter lembrado disso. Ao contrário da primeira vez em que o vira, quando comera em molho de escabeche, o homem vestido de preto pediu desta feita uma dose de entremeada de porco e um jarro de vinho tinto das américas.
Vai não vai, encontrando‐se este vosso criado naquele êxtase confiante que medeia entre o segundo copo de três de tinto e os restantes, fitei‐o de modo descarado, longamente, mas o homem vestido de preto não se desconcertou.
Pareceu‐me que tinha mais cabelos brancos do que da última vez e que os seus olhos eram ainda mais brilhantes, ainda mais alucinados, se é que possível descrever tamanha alucinação como a que lhe vi luzir nessa ‐ felizmente ‐ já distante noite, subitamente tornada gélida, em Março de 2020.
Recordo‐me ainda de que no aparelho de imagens o Bergamo dava uma tareia ao Valência mas que, na segunda mão, em Valência, correu mal. Foi a a vinte minutos do fim, parecia a eliminatoria decidida, mal sabíamos o quanto aquele jogo seria mortal, quando o Jorge, por demais conhecido como o bêbado do bairro, me chamou discretamente à atenção: Lúcio, topa ali (coisa no Júlio
extremamente rara), para a mesa do canto onde se encontrava o homem vestido de preto.
Até hoje, estou convencido de que se não fosse esse reparo tímido do bêbado do Jorge nunca mais me teria lembrado do homem vestido de preto, do homem de olhos brilhantes vestido de preto que sozinho não via ninguém e ao mesmo tempo parecia vislumbrar o Universo inteiro.
Foi quando o Jorge me desviou a atenção do jogo no qual o meu futebol tantas desgraças ronaldava, que me apeteceu dar ao homem vestido de preto um bom par de estaladas.
Porém, não o fiz. Li nos seus olhos algo de indizível, perturbador, angustiante, algo de que até hoje não me esqueci e estou em crer que é esse o motivo pelo qual senti a necessidade de confiar ao vácuo este prosaico episódio.
Incomodado, virei‐lhe as costas, na minha vã determinação de desfrutar de uma noite de domingo normal, apreciando apenas os dribles de Sousa para Zé Miguel, os cortes de carrinho de Frasco, bem como as sempre incompreendidas acções dos bandeirinhas, que todos nós, os da Adega dos Passarinhos logo comentávamos, acalorados, imbuídos de uma estranha fraternidade, a qual, como é óbvio, logo e ainda hoje se esfumava mal o apito final do árbitro se fazia ouvir.
Em vão tentei ignorá‐lo, dizia‐vos, mas pareceu‐me impossível regressar ao meu tão singelo e contudo tão elaborado prazer dos domingos à noite na Adega dos Passarinhos. No momento preciso em que os meus olhos de novo recaíram sobre ele, quase que tinha terminado o seu repasto. Apanhei‐o no preciso momento em que o senhor Teixeira, sem qualquer desdém e até num modo que me pareceu a mim respeitoso em demasiada, com uma clarividência que me pareceu por demais estranha, lhe perguntava, atencioso: “O senhor vai desejar mais alguma coisa?..”
O restaurante inteiro pareceu‐me parar no tempo, suspenso da resposta do homem vestido de preto. Pareceu‐me até que os que o não conheciam sentiam no ar que algo de grave estava prestes a suceder, embora ninguém pudesse, em abono da verdade, prever exactamente o quê ou quem ou o como.
Por graça ou acaso do destino, na televisão uma lesão interrompera o jogo e o silêncio do ruído ecoava ensurdecedor a partir do estádio agora mudo até vir embater de chofre nas paredes engorduradas da sala de refeições, num estribilho que me lembrou uma canção diabólica.
Então, o homem vestido de preto replicou, naquela voz grave e seca que todos sem excepção reconhecemos com temor, naquela voz desprovida de qualquer sentimento,
naquela voz que era como se fosse a de um homem morto e vivo apenas por segunda ou terceira ou sexta prestação interposta, num sorriso cúmplice, que só o bom do Teixeira pareceu compreender: «Hoje, Senhor Teixeira, apenas desejo estar e prestar atenção aos vossos jogos. Estou de folga, como de costume, sempre que vos venho visitar.»
Tuesday, May 26, 2020
Saturday, May 23, 2020
Covid do dia
"(...) The coronavirus crisis has now revealed the austerity logic to be an utter sham: as advocates of modern monetary theory (MMT) have been saying for years, states that issue their own currency and issue debt in their own currency (i.e. every advanced country in the world with the notable exception of the eurozone) can never ‘run out of money’, nor can they become insolvent because, unlike households or firms, they can literally create money out of thin air. (...)" Mais, aqui.
Friday, May 22, 2020
Um spa no telhado
«Querido Lúcio Ferro, desculpe o "querido", mas apeteceu-me, leio-o um tanto pateta, um tanto perdido e apeteceu-me tratá-lo por querido. Pronto, ou prontes, antes de começar a espingardar no correio de volta, inicio de novo: Querido Lúcio, melhor assim? Deixa-se de nostalgias, é o que lhe quero dizer. Deixe lá essas coisas do passado e das dificuldades, estamos quase todos a passar por isso, como saberá. Ademais, há que dar tempo ao presente. Ao agora. Há que dar tempo ao lazer de que podemos desfrutar no presente, o lazer é essencial para o equilíbrio do ser humano, é preciso dar tempo para descansar, para apreciar, para pensar, para... Muitas outras coisas. E é curioso, um dos seus discursos anteriores estava pejado de referências à Linha de Sintra e eu, eu ainda ontem de manhã me deu um repente, desmarquei tudo o que tinha para fazer, reuniões, video calls, pus-me em em modo de away, peguei na carteira, deixei de propósito o telemóvel em casa, enfiei-me no meu automóvel, que já bem que precisava de rodar e fui passar o dia na Linha, via Santo Amaro, Parede, Cascais, Guincho. Só voltei já era noite. Não vi quase ninguém, tão bom não termos turistas. Faz tão bem sair assim, por vezes, mudar de ambiente, largar o teletrabalho, entrar num ritmo diverso, apreciar o tempo por si mesmo. E agora, a pergunta incontornável: Would you like to meet during the weekend? Vai estar sol, tenho um spa no telhado, espumante no frigorífico e não está cá mais ninguém...»
Thursday, May 21, 2020
Covid do dia
...Lavei mais vezes as mãos em três meses do que no resto da minha vida e não vou para novo...
Wednesday, May 20, 2020
Alles gute
Imagine that you are 50 years of age. Imagine that you've grown a pablo escobar type of belly and a long grey hair to match, never mind the moustache. Imagine that the summer is around the corner, you're eating outside, wearing just but shorts, you got 3 kittens, a full grown dog and a woman that is rather fluent in German (and hot). Imagine that you're broke, but you're still living the life, and that your business associates keep telling you they're going under and that unless you do as they say you are soon to follow. Imagine that, on top, there's a virus that's bringing havoc on all of your financial enterprises. Imagine that you're thinking about it after an excellent meal. Imagine that it was smoked salmon, fresh asparagus, Greek potato salad, Mediterranean bread, a few glasses of Beaujolais wine, a cup of Colombian coffee and a Cuban cigar. Imagine that you're so fed up with speaking Portuguese, listening to German, that you decide to think and write in English. Imagine that you're in the process of doing it. Imagine that you receive a call, from a Mexican secluded paradise, on the Pacific coast and bingo, suddenly all chips fall into place and it seems you're apparently off the hook. Imagine that that call entices a somewhat risky proposal. Imagine that the guy making the call is dodgy, though a good friend and associate from the past. Imagine that his call comes bearing gifts and a potential huge profit. Imagine that. What would you do? Would you say yes, bueno amigo, or would you say no, no hablo?...
Monday, May 18, 2020
Porto de aventuras
(...) Estava no primeiro ano da faculdade, 18 anos mal feitos, quando ouvi pela primeira vez alguém a chamar-me «morcão»; foi uma velha gorda, feia, que cheirava mal e sinceramente não percebi a sua interjeição. Havia sido transplantado de Coimbra para o Porto dias antes e «morcão» não era palavra, nesses tempos ingénuos, que fizesse parte do meu léxico. À época, fora viver para São Pedro de Campanhã, Azevedo, ali ao lado do palácio da circunvalação e sonhava ser jornalista, conquanto pouco ou nada soubesse da vida, das armadilhas do jornalismo e de quão cruéis poderiam a vida e certos «jornalistas» serem.
Recordo-me de que costumava apanhar o eléctrico no Infante, o 1 (que ainda hoje subsiste, apesar de se ter transformado numa linha turística praticamente interdita aos locais) e seguir, daí, sempre pelo contorno da margem do rio, por volta das oito, nove da manhã (chegava sempre atrasado à primeira aula), até ao Castelo do Queijo, bem perto do sítio onde aprendi a pescar, muito antes, ainda menino, saía a tainha, a enguia e o robalo, pela mão da cana de pesca experiente do meu avô.
Fazendo flashforward, na altura do 1, que ia do Infante ao Castelo do Queijo, não havia Ipods, Internet, de redes sociais nem falar e de telemóveis era assim uma coisa de que nem sonhávamos. Namorava ao único telefone de casa, eu e ela tínhamos um código, às oito da noite ela ligava e eu ia a correr para a única extensão; é para mim, é para mim! com a minha avó e o meu avô a trocarem olhares cúmplices da salita das refeições, à escuta do que eu ia dizendo no átrio da entrada. E eu, para além do namorico, nos dias em que não acordava a tempo de ir para a fac de eléctrico, apanhava o autocarro 3 dos STCP, o qual, depois de fazer uma curva imensa negociando o inferno da Rua do Freixo, me depositava em São Lázaro, à boca da Biblioteca Municipal, onde invariavelmente mandava às malvas a primeira e até a segunda aula, deliciando-me ao invés com as fichas de leitura e os arquivos da biblioteca, a recordarem-me o que seria a PVDE dos tempos igrejos do meu avô, resistente antifascista que chegara a albergar nos tempos do botas o Cunhal, na nossa casa de família.
Tudo isso era para mim, jovem e inocente, um autêntico manjar. Ao sair da biblioteca, depois de deitar os olhos por Camus, Pessoa, Mário de Sá Carneiro, passava pelo Cinema Águia, ao fundo da ladeira, ao desembocarmos na Praça da Batalha, sorria aos cartazes revisteiros do Teatro São João, admirava o Último Tango em Paris no cinema Passos Manuel, descia a rua larga de Santa Catarina, com a sede do jornal onde viria a fazer a tarimba, numa transversal, já então decadente, e descia, a passo estugado, rumo à jugular da cidade, a Avenida dos Aliados. Aí, encontrava o Imperial com os seus magníficos vitrais, o Embaixador com o seu cheiro a espaço livre e corria, sempre atrasado, rua abaixo até ao planalto da estação das máquinas de ferro de São Bento (outro espanto de beleza), assumindo, apesar das pressas da juventude, uma postura reverente ou, tal como afirmavam os meus amigos reaccionários de então, «lá vai o Lúcio descendo pela rua de Santo António até ao Bairro da Sé velha da graça, passando fulminante pela rua do nosso senhor Mouzinho da Silveira, herói da campanha ultramarina, que para sempre o há-de curar das suas tendências anarquistas».
Suponho, actualmente, que seriam outros tempos, outras formas de ver o mundo, o qual era, também ele, outro que já não é o de hoje, porque não poderia ser. Era um mundo mais ingénuo e era um mundo muito mais lento e um mundo que permitia amar e pensar de forma diferente do que a de hoje. Repetindo-me, não havia Ipods, os telefones fixos eram raros, computadores ainda havia menos, disso tenho a certeza, e o que havia, talvez em virtude de existir com mais permanência, com mais tempo para ser visto, com mais luz, com mais cores, talvez não fosse mais feliz mas - garantidamente - era mais genuíno. (...)
Recordo-me de que costumava apanhar o eléctrico no Infante, o 1 (que ainda hoje subsiste, apesar de se ter transformado numa linha turística praticamente interdita aos locais) e seguir, daí, sempre pelo contorno da margem do rio, por volta das oito, nove da manhã (chegava sempre atrasado à primeira aula), até ao Castelo do Queijo, bem perto do sítio onde aprendi a pescar, muito antes, ainda menino, saía a tainha, a enguia e o robalo, pela mão da cana de pesca experiente do meu avô.
Fazendo flashforward, na altura do 1, que ia do Infante ao Castelo do Queijo, não havia Ipods, Internet, de redes sociais nem falar e de telemóveis era assim uma coisa de que nem sonhávamos. Namorava ao único telefone de casa, eu e ela tínhamos um código, às oito da noite ela ligava e eu ia a correr para a única extensão; é para mim, é para mim! com a minha avó e o meu avô a trocarem olhares cúmplices da salita das refeições, à escuta do que eu ia dizendo no átrio da entrada. E eu, para além do namorico, nos dias em que não acordava a tempo de ir para a fac de eléctrico, apanhava o autocarro 3 dos STCP, o qual, depois de fazer uma curva imensa negociando o inferno da Rua do Freixo, me depositava em São Lázaro, à boca da Biblioteca Municipal, onde invariavelmente mandava às malvas a primeira e até a segunda aula, deliciando-me ao invés com as fichas de leitura e os arquivos da biblioteca, a recordarem-me o que seria a PVDE dos tempos igrejos do meu avô, resistente antifascista que chegara a albergar nos tempos do botas o Cunhal, na nossa casa de família.
Tudo isso era para mim, jovem e inocente, um autêntico manjar. Ao sair da biblioteca, depois de deitar os olhos por Camus, Pessoa, Mário de Sá Carneiro, passava pelo Cinema Águia, ao fundo da ladeira, ao desembocarmos na Praça da Batalha, sorria aos cartazes revisteiros do Teatro São João, admirava o Último Tango em Paris no cinema Passos Manuel, descia a rua larga de Santa Catarina, com a sede do jornal onde viria a fazer a tarimba, numa transversal, já então decadente, e descia, a passo estugado, rumo à jugular da cidade, a Avenida dos Aliados. Aí, encontrava o Imperial com os seus magníficos vitrais, o Embaixador com o seu cheiro a espaço livre e corria, sempre atrasado, rua abaixo até ao planalto da estação das máquinas de ferro de São Bento (outro espanto de beleza), assumindo, apesar das pressas da juventude, uma postura reverente ou, tal como afirmavam os meus amigos reaccionários de então, «lá vai o Lúcio descendo pela rua de Santo António até ao Bairro da Sé velha da graça, passando fulminante pela rua do nosso senhor Mouzinho da Silveira, herói da campanha ultramarina, que para sempre o há-de curar das suas tendências anarquistas».
Suponho, actualmente, que seriam outros tempos, outras formas de ver o mundo, o qual era, também ele, outro que já não é o de hoje, porque não poderia ser. Era um mundo mais ingénuo e era um mundo muito mais lento e um mundo que permitia amar e pensar de forma diferente do que a de hoje. Repetindo-me, não havia Ipods, os telefones fixos eram raros, computadores ainda havia menos, disso tenho a certeza, e o que havia, talvez em virtude de existir com mais permanência, com mais tempo para ser visto, com mais luz, com mais cores, talvez não fosse mais feliz mas - garantidamente - era mais genuíno. (...)
A fotografia foi tirada pelo meu avô materno, Fernando Gaspar, cerca de 1950.
Saturday, May 16, 2020
Capital e trabalho*
Nada entendo de economia, li Keynes muito por alto, de Ricardo sei o nome, de Adam Smith retive o tom ingénuo, a sua «noção benigna» da mão invisível e, ao contrário de Vítor Gaspar, não li o Das Kapital aos 17 anos (foi só aos 21 que me abalancei a tão vasta obra, sendo que, ao contrário do traidor que foi depois para o FMI receber as suas 30 moedas apenas li alguns capítulos, nomeadamente os que se referiam à criação de mais-valia).
Todavia, há um «paradigma» que me parece afirmar-se como tendência económica de contornos cada vez mais precisos, na Europa, de há uns anos a esta parte. Essa tendência é a de o trabalho valer cada vez menos e o capital valer cada vez mais.
Para a Europa, é todo o avanço do trabalho desde o final da II Guerra Mundial que está em causa. No espaço de poucos anos, o trabalho passou a ser tido como algo a taxar em progressão geométrica e a retribuir cada vez menos, em simultâneo aumentando-se o tempo obrigatório da sua duração e assim cumprindo o axioma económico segundo o qual se deve «trabalhar mais ganhando menos».
Por outro lado, o capital tem actualmente como função primordial ser «resgatado» pelo trabalho (são os bailouts), em simultâneo sendo poupado a taxações que colocariam em risco o seu «fluxo», algo de «perigosíssimo». Ou seja, assistimos a uma inversão vincada de tendência nas relações de força entre o capital e o trabalho, em prejuízo deste último. Contudo, esta inversão não é nova e pode até ser tida como representativa de um fenómeno perfeitamente racional, pelo menos se assumirmos que o motor real da economia não é o trabalho mas sim o capital, entendido aqui como o lucro e a manutenção e multiplicação do mesmo, o lucro que permitirá «investir» e, assim sendo, «gerar» trabalho, consequentemente «equilibrando» a relação de forças entre o trabalho e o capital.
O problema é que o capital, sendo por defeito uma noção mais abstracta do que a de trabalho, entrou no séc. XXI, paradoxalmente, com menor regulação do que o trabalho, o que levou a que tivesse entrado numa espiral de lucro insustentável (não acompanhando o valor acrescido «real» que era produzido pelo trabalho), o que acabaria por ter como desfecho lógico a grande debacle dos capitais de Outubro de 2008. Desde então, a passo estugado, o capital pensou apenas em proteger-se, num primeiro momento coagindo o trabalho a «resgatá-lo» e – claro - movendo-lhe desde então uma guerra não declarada, com o intuito de diminuir, precisamente, a porção de «capital» que com o «trabalho» tem de «despender».
O problema é que o capital, sendo por defeito uma noção mais abstracta do que a de trabalho, entrou no séc. XXI, paradoxalmente, com menor regulação do que o trabalho, o que levou a que tivesse entrado numa espiral de lucro insustentável (não acompanhando o valor acrescido «real» que era produzido pelo trabalho), o que acabaria por ter como desfecho lógico a grande debacle dos capitais de Outubro de 2008. Desde então, a passo estugado, o capital pensou apenas em proteger-se, num primeiro momento coagindo o trabalho a «resgatá-lo» e – claro - movendo-lhe desde então uma guerra não declarada, com o intuito de diminuir, precisamente, a porção de «capital» que com o «trabalho» tem de «despender».
As consequências deste desequilíbrio estão a e vão causar uma crise singular por toda a Europa, uma crise que não é nem será só económica mas também de valores. Uma crise perigosa. Porventura, poder-se-á até alegar que corresponde a um ajustamento mundial do capitalismo em si, o qual tenderá para modelos mais «liberais», como o chinês ou o indiano. Seja como for, se esta tendência não augura nada de bom para o trabalho, ou melhor para quem trabalha, também não será muito auspiciosa para o capital, apesar de este, no curto ou médio prazo, possuir ferramentas mais adequadas à sobrevivência num modelo de capitalismo «selvagem» (por oposição ao de capitalismo «social» que o precede na Europa), do que o trabalho.
* Revisão de um apontamento que escrevi em 2010.
Covid do dia
É impressão minha, ou isto do uso generalizado de máscaras
vai ser maná celestial para ladrões e terroristas?..
Friday, May 15, 2020
Pós romantismo em tempos de covid...
Quando pus o pé fora da casa do meu amigo naquela manhã morna de final de Primavera, estava longe de imaginar a proposta a que os meus pés me guiariam. No final de tarde anterior, o meu ego recebera um boost de confiança: no court das traseiras da casa que em tempo de confinamento ficara abandonado, abatera o meu parceiro de ténis com umas bolas certeiras, dera-lhe uma lição, não sem retirar dessa partida conhecimentos preciosos para o futuro (nomeadamente higienizar bolas e raquetes antes e depois).
Não obstante a sua derrota, fora cortês o suficiente para me dar guarida, com a contrapartida de que a confecção do jantar ficasse por minha conta. Assim me encontrava nessa manhã, com uma ressaca que me deixava tépido, pachorrento, mas com a presença de espírito necessária para não me permitir negligenciar as responsabilidades, as do trajecto até casa e as que me aguardavam no tele-trabalho do lar.
Sentado nos degraus da estação, completamente às moscas, depois de por telefone ter partilhado angústias com antigos colegas de profissão, fumava um cigarro que se consumia com indulgência. Esfumava-se com a lentidão de um cigarro que nunca conheceu pressas, afazeres, angústias, cuidados ou responsabilidades. Obriguei-o a apressar-se, puxei com baforadas persistentes, mau-grado a sua resistência. Demasiado tabaco, demasiado prensado.
A hora do comboio aproximava-se. Cinco minutos. A estação às moscas. Decidi que atirá-lo ao chão seria falta de civismo, muito embora estivesse um pouco impaciente, pelo que passei os olhos pelos arredores até estes me levarem ao caixote mais próximo. Esmaguei-o com o sapato, levei gel às mãos, deitei a beata onde era devido e o meu pescoço virou-se num trejeito involuntário em direcção a um corpo humano, especado no canto do meu olhar. Os lábios negros mexiam-se devagar e, parecia-me, as palavras deveriam sair com clareza, embora não as ouvisse. Tirei os phones e pedi-lhe que repetisse.
- Estás sozinho? – perguntou. Tinha uma voz melíflua e olhava-me com grandes olhos castanhos, um tanto submissos, que me estudavam com discrição inquisitiva. Respondi-lhe que sim, que estava sozinho, parecia-me óbvio (até o ver, na estação era só eu e as moscas). Tentando perceber até onde iria levar esta troca de palavras, que esperava breve, deixei correr o marfim.
- Queres ir até ali?...
Olhei-o de perto e mirei-o de longe, com dois metros de distância, como diz o outro, que quem vê caras não vê covids e muito menos intenções. Tinha aquela pulga atrás da orelha, aquela que me diz que estou prestes a passar por um episódio tão inédito quanto absurdo mas, como passo a vida a queixar-me de algum ennui face à vida, à rotina, aos dias que se arrastam sem que se dê pela sua passagem, habituei-me a dar as boas vindas ao absurdo, aprendi a dar-lhe valor, sem ligar à cor, forma, cheiro ou entoação que possa assumir. Um negro, mais baixo do que eu, com ar apresentável e um ainda maior ar de caso acabara de me convidar para «ir até ali», fosse o ali onde fosse.
Com olhos penetrantes, ele esperava uma resposta. Descontraído, disse-lhe que tinha pressa, o meu comboio chegava daí a nada. Não satisfeito, insistiu, sempre delicado, mas firme na sua convicção: «vem até ali comigo». O tipo intrigava-me, mas para mistérios de manhãs ressacadas tenho Os Cinco, o estranho caso do Novo Banco e outras merdas que tais. Despedi-me, educado, e, quando me preparava para rodar nos calcanhares, disparou a pergunta como quem está habituado a premir o gatilho:
- Deixas-me fazer-te um broche?
Há características da minha personalidade de que me orgulho e que muito prezo. Uma delas é a capacidade, que tenho tido bastantes oportunidades de aperfeiçoar, de me distanciar do absurdo no momento em que ele me sucede e de o encarar como se fosse um mero espectador. Numa centésima de milionésimo de segundo, o meu cérebro recapitulou: Ok, estás numa estação de comboios, são umas onze horas, confinamento e tal e um marmanjola qualquer acabou de te perguntar se o deixas fazer-te um broche. Se deixo...? Sujeito educado, sem dúvida. A mãe ensinou-lhe bons modos. Fosse como fosse, tentei focar-me no inaudito da situação. O sujeito estava na estação a distribuir broches como se fossem chupas. Parecia que estes filmes só me aconteciam a mim. Que poderia responder? O tipo continuava expectante.
- Epá, não posso, faltam cinco minutos para o comboio e tenho mesmo de apanhar este – foi a resposta que se me escapou por entre os lábios. Sem me engasgar ou falhar a voz, como se nada fosse, falava-lhe com a naturalidade de quem recusa um convite para tomar café. Não se dando por vencido, insistiu que ainda dava tempo. Face a um argumento tão pertinente, tive de lhe dizer:
- Cinco minutos não é lá muito tempo para um broche. Tenho mesmo de ir neste comboio, depois só há outro às cinco da tarde, fica para uma próxima, ok? Tchau.
Virei costas e raspei-me.
O gajo estava, sem dúvida, de atalaia ao caixote do lixo e, pensei eu, talvez tivesse mais sorte com o próximo viajante solitário que se lembrasse de deitar ali o cigarro. Enquanto as escadas rolantes me conduziam à plataforma, reflectia no caso. Porque diabo nunca me tinha aparecido uma loiraça espampanante, de mini-saia e mamas grandes, pronta a fazer-me um broche? Não quer dizer que aceitasse, não, não, sou muito desconfiado em relação a estranhos que me propõem mamadas no meio de uma estação de comboios em plena cidade, em pleno covid, sejam pretos, loiras, chineses ruivos, indianos albinos, cães falantes, palhaços em monociclos ou pára-quedistas vestidos de mergulhador.
Divertido, sentado no comboio, também este vazio, tive motivo para me rir sozinho a viagem toda e, apesar de tudo, torci para que o tipo não acabasse a manhã com um olho negro ou coisa pior. Se as vítimas da sua atenção fossem como eu, até acabariam por se divertir com o inédito da situação. Caros leitores e leitoras, escutem-me: não é assim que se propõe um broche, assim, a sangue frio e para mais em tempos de pandemia. Apresentem à pessoa objecto do vosso desejo um teste recente negativo, digam que usarão luvas, que não haverá beijos na boca, nestes tempos voláteis, todas as precauções são poucas. No entanto, se forem mais impetuosos/as, não peçam autorização, agachem de imediato e façam um ataque cirúrgico à braguilha. Deixo isso ao vosso critério, Mas, por favor, rogo-vos, não se ponham a propor broches assim à entrada da estação dos comboios, ao pé do caixote do lixo. Isso é que não! É mais do que provável que não tenham sorte, porque assim não criam clima, não há espaço para a sedução, não há romantismo, que tão necessário este é, sobretudo em tempos de covid!
Com a devida vénia ao Mad John.
Wednesday, May 13, 2020
O triunfo dos porcos?
(...) Boas perguntas. Estou em crer que esse processo de desagregação e de destruição da democracia se iniciou com a queda do muro de Berlim. Não estou a defender o modelo soviético mas, até este colapsar, as elites financeiras europeias e norte-americanas, os donos do chamado “mundo ocidental”, tinham de dar migalhas a todos os seus cidadãos, sobretudo aos que pouco ou nada tinham, porque caso contrário estes viravam-se para o outro lado, abraçavam o comunismo que, na sua síntese teórica (não na prática, como depois se verificou), oferecia uma visão muito mais justa do mundo e da sociedade. A atracção do comunismo verificou-se sobremaneira em França e em Itália (muito menos no "altar" da democracia, os EUA, país em que o partido foi proibido). Em França e Itália, onde fortes partidos comunistas obrigaram as elites a fornecer aos eleitorados razões para permanecerem na esfera do capitalismo, houve a oportunidade de alterar o jogo dessas elites financeiras e grande parte do mundo, até os EUA, tiveram de ir por arrasto, caso contrário a revolução bater-lhes-ia à porta com grande vigor. Foi por causa da atracção do comunismo que as elites financeiras do ocidente tiveram de fazer concessões.
Não fossem os sucessos percepcionados do comunismo e o ocidente não teria de criar, com ou sem engulho, o estado social, de dar direitos (suados) ao zé povinho, de passar a pagar condignamente o trabalho, de consagrar liberdades (não só formais), de criar sistemas universais de saúde e de educação. Aliás, daí decorreu igualmente o quarto pilar da CEE, o da Solidariedade (o qual tão anda pelas ruas da amargura desde os tempos da UE e que quando há 30 anos eu era um jovem estudante tinha direito a um manual de 400 páginas, mesmo numa universidade privada).
Com a queda do comunismo, a elite financeira do lado de cá (quem realmente conta porque é quem controla os media e quem elege os políticos), ficou à vontade para fazer o que bem desejava. Para além de esmagar regimes que lhe desagradavam, começou a promover para os seus eleitorados uma agenda consumista e, acima de tudo, individualista. A igualdade passou completamente para segundo plano, idolatrando-se ao invés uma suposta liberdade individual. Toda uma máquina cultural exportada a partir dos EUA se dedicou e se dedica a esse serviço, os valores de Hollywood são os valores do individualismo primário e da violência (basta ficar um mês de quarentena com televisão por cabo para perceber que o discurso do entretenimento é todo igual e que esse discurso estabelece as aspirações da sociedade global). Essas doses maciças de endoutrinamento cultural, associadas a uma revisão linguística, ou nova linguagem, em que por exemplo trabalhadores deixaram de o ser e passaram a ser "colaboradores", levaram a uma crescente atomização social, a um primado de cada um por si e os outros que façam por eles próprios, de adquirir mais e mais coisas de que antes não se tinha necessidade alguma, de poluir, sendo que os mercados tudo se encarregariam de nivelar. Com o tempo e com as crises económicas, o modelo foi provando as suas contradições.
Com Reagan e Tatcher começou o ataque ao estado social. O ataque à educação e à saúde tendencialmente gratuitas, aos transportes públicos, às energias e águas públicas, mas tudo teria corrido bem não fossem as crises económicas. Num primeiro momento, tudo eram flores, o fim da história de Fukuyama: havia dinheiro, prosperidade, o comunismo estava morto, não havia alternativa, havia o suficiente para todos os cidadãos se endividarem, para terem casa "própria", automóveis, créditos pessoais, seguros privados, uma bonanza de prosperidade. No entanto, com a crise de 2008, tudo mudou. As pessoas começaram a duvidar da democracia: para quê votar se o resultado seria quase sempre o mesmo, mais desemprego, mais dívida, menos rendimento? Daí até o ressurgimento dos populistas como trump e bolsonaro, que vinham respaldados por elites financeiras, de soluções fáceis e milagrosas, foi um pulinho.
Agora, quanto ao que podemos/devemos fazer, enquanto comuns cidadãos dotados de mais do que um neurónio, para além de estarmos vigilantes, pois não sei. Numa sociedade totalmente dominada pelo individualismo e pelo consumismo, o que podem cidadãos como nós fazer? Temos dinheiro para lançar um canal de televisão? Um jornal? Dinheiro para pagar a publicidade necessária para que esses meios cheguem a públicos vastos? Como a Fox News ou como, a nível doméstico, O Observador ou o grupo Cofina? Não temos.
A realidade hoje é que o dinheiro é o único valor, a solidariedade desapareceu das cadeiras de estudos europeus das universidades. Voltando ao básico: onde estão hoje as cooperativas? Como aquela que fundou a seguir ao 25 de Abril um órgão de comunicação ao serviço da democracia como era O Jornal? Desapareceram, foram liquidadas; por quem e porquê? Quem é que controla os media? O que é que estes vendem? Neste cenário, o que é possível fazer? Acção armada? Entrar pelo New York Stock Exchange, pelo DAX, pela City e abater os gajos todos? Para além de ser dificílimo de executar, o que é que isso adiantaria, fora a morte de uns quantos inocentes? Sermos depois abatidos e para sempre carregarmos o anátema de sermos "terroristas"? Transformar os mercados em mártires para que reabrissem no dia seguinte, ainda mais desregulados?
Eu, numa socieadade em que até a família se atomizou, faço o que posso, tento passar a minha mensagem e no meu trato com as pessoas do meu círculo directo tento ser o mais aberto e justo possível. Fora isso, também tenho uma vida, estou dentro do sistema, vivo e dependo do sistema, e o sistema o que me diz é que tenho de andar bem comportadinho, não fazer ondas e ir cheio de sorte se no fim do mês tiver dinheiro para as contas, porque almoços grátis há, por exemplo para as grandes empresas, para os bancos, para as companhias aéreas, para o Elon Musk da Tesla e a sua desobediência civil, etc, etc, que já se prepararam para receber bailouts chorudos, que os bónus dos big businesses têm de ser pagos: nisso, nisso não se pode tocar. Mas, para mim, para nós, os vulgares, os descartáveis, quais almoços grátis? Isso é que era bom. Portanto, não basta estarmos vigilantes e eu concordo, mas que mais podemos fazer? Pouco e a verdade é que por trás de cada trump há mil bolsonaros, por trás de mil bolsonaros há calhaus de orbans e que, a nível doméstico, há cada vez mais venturas. Como os travar, quando foi uma democracia TINA (There Is No Alternative) que os fez florescer? Não sei, mas estou aberto a sugestões. (...)
Um obrigado a Helena Araújo, cujas perguntas simples e directas motivaram esta humilde reflexão.
Tuesday, May 12, 2020
Esta terra...
Esta terra é minha
Esta terra é da minha mãe
Esta terra é do meu pai
Esta terra é do meu irmão
Esta terra é da minha Ana
Esta terra é do meu Lipe
Esta terra é do meu Yago
Esta terra é da minha Ticha
Esta terra é da minha Fox.
Esta terra não foi roubada
Este terra foi comprada
Esta terra tem nela amor
Esta terra é dos coelhos
Esta terra é dos matos
Esta terra é dos sobreiros
Esta terra é das borboletas
Esta terra é das flores
Esta terra é dos pinheiros.
Esta é a minha terra
Mas se esta terra é minha
Eu sou dela e esta terra...
Esta terra não é de ninguém
Esta terra é dela, é terra que...
É terra que pertence à Terra.
Monday, May 11, 2020
Delito por delito, com carinho
Como sabem os poucos que me lêem, não sou tipo para me ficar quando detecto incongruências e sobretudo que não me fico porque tenho memória de elefante. Isto vem a propósito de um organizador de um blogue colectivo, blogue esse que dá pelo nome de Delito de Opinião, uma coisa assim a atirar para as direitas, mas aparentemente séria, uma espécie de albergue espanhol, que tão depressa tem autores com algum calibre, como tem incongruências mais ou menos sofisticadas, como o seu organizador e principal dinamizador, um jornalista chamado Pedro Correia. O curioso no delito é isso mesmo: uma alegada pluralidade, uma vasta legião de leitores, uma série de autores, uns mais ou menos honestos e outros menos, um tal de desonesto rui rocha que me vem à memória, e o Pedro Correia. Conheci o delito há muitos anos, ainda eu andava a brincar às blogoesferas e cheirou-me logo a esturro, apesar de, ao longo dos anos, por lá ter lido coisas interessantes, inclusivamente coisas escritas pelo próprio Pedro Correia, escritas por outras pessoas tão ou mais decentes, sendo que muitas destas se foram desvinculando do delito, que não passava, nas entrelinhas, de uma agenda fashionable para favorecer certas e determinadas clientelas. À medida que esses "colaboradores" iam percebendo a orientação falaciosa do organizador do blogue em questão, mais ou menos graciosamente, iam-se desvinculando do mesmo: o autor de Crónicas do Rochedo, o saudoso Carlos, foi um deles. Então, houve um dia em que uma pessoa que me é próxima, doutorada em filosofia política, foi achincalhada na caixa de comentários, por Pedro Correia. Eu ia lendo a coisa, piando fininho, porque é importante perceber o que pensam os estrategistas da direita subtil e oportunista. Cerca de 2009, Pedro Correia, com a ajuda de compagnons de route úteis, lançou-se na perseguição ao governo socialista da época, com unhas e dentes. Sabemos todos o que aconteceu em seguida; Portugal foi de vela (como irá agora), veio o passos, o gaspar e o relvas. O que poucos sabem, até porque Pedro Correia faz questão de ocultar o seu passado, é que nos anos da troika houve quem tivesse arranjado tachos (pessoas) muito bem remunerados, via Avenida de Roma e activas colaborações em inventonas ignomiosas, como a de Belém, preparada numa mesa do Café Luanda, na referida Avenida de Roma, à pala da austeridade por que então à direita tanto se ansiava. Uma dessas pessoas, conquanto não o possa provar, terá sido o próprio Pedro Correia, o qual foi (e isto é um facto), na sequência da "bancarrota", para assessor de miguel relvas, a ganhar três mil euros limpos/mês à conta, penso eu, de manter um blogue de referência "pluralista", enquanto o resto da malta suava as estopinhas com a história de que vivíamos acima das nossas possibilidades. Dito isso, nada tenha contra Pedro Correia, nem contra o Delito de Opinião. De tempos a tempos, o Pedro Correia até faz serviço público e outros autores há no delito que gosto bastante de ler, por exemplo Teresa Ribeiro, uma pessoa que me parece séria, bem como muitos outros. Mas tenho memória de elefante e chateiam-me outros indivíduos que são como a anedota do médico: faz aquilo que eu digo, não faças aquilo que eu faço.
O cigano da 13ª Hora
(...) Olívio saiu do hospital e dirigiu-se ao automóvel, um potente citroen XM preto que tinha deixado mal estacionado. Quando chegou ao carro estava uma multa no pára-brisas. Sorriu encantado, tirou a multa, rasgou-a em pedacinhos e deixou que o vento se encarregasse do resto. Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e fez-se à auto-estrada do Norte. Em hora e meia estaria em Castelo de Bode. Quando lá chegasse teria de ter cuidado para não ser visto pelo miúdo. Aquela história cada vez lhe agradava menos. Não tinha problemas nenhuns em ter despachado ainda na noite anterior três putas. Uma que engatara no Intendente, e outras duas no Caís do Sodré. A única que lhe custara um pouco fora a a última, chamava-se Telma e era bonita. Mas Olívio era um homem religioso e dizia sempre uma oração fúnebre pelas suas vítimas. Por outro lado, consolava-o o facto de que fossem putas e não mulheres sérias. Toda a gente sabia que as putas são a escória da terra, e que uma puta morta não faz falta a ninguém. Não era tê-las morto o que o incomodava. Era o que estavam a fazer ao miúdo: os choques sucessivos que lhe tinham preparado, com uma frieza que nem em África o capitão Califa tinha demonstrado. O automóvel corria velozmente pela A1. A mente de Olívio vogava agora no mar do passado.
Aos 17 anos cometera o maior erro que um cigano podia cometer: deitara-se na palha com uma rapariga de outro clã e por isso tivera de fugir. Jovem, irrequieto e com sede de aventura alistara-se nos Comandos. Esse fora o seu segundo maior erro de sempre. A guerra em África estava ao rubro e um cigano nos Comandos não tinha vida fácil. Era ainda pior do que ser um negro. Durante o curso de instrução na Metrópole comera o pão que o diabo amassara, mas fizera-se um homem forte, temido e inflexível. Superiores e camaradas, todos o tinham tratado com desprezo e violência. Durante um exercício, um filho da puta de um sargento de instrução dera-lhe mesmo um tiro a valer e a sorte foi que apenas lhe acertara de raspão. O sargento alegou desconhecer que a arma estava carregada e safara-se com uma mera reprimenda. (...)
Mais, ler aqui.
Não há revolução? Há flores
Pensar que um tipo como eu, quase aos cinquenta, estaria hoje a reler autores tidos pelo paradigma vigente como proscritos, autores quase impossíveis de encontrar, autores que lia nos meus vintes, autores como Marx, como Bakunin, como Proudhon. Que reencontro este de ver os sublinhados e as notas que fiz há trinta anos no capítulo sobre as mais valias do Marx em O Capital, os pontos de interrogação no Prólogo de Filosofia da Miséria de Proudhom e as máximas de Bakunin traduzidas do russo para o francês, l'uniformité c'est la mort, la diversité c'est la vie. Realmente, é estranho, mas também é salutar e ajuda a compreender o ponto a que chegámos e o porquê de nos encontrarmos num beco sem saída: é porque ninguém lê esses tipos, porque gostamos mais de Friedman, de Fukuyama e dos seus apêndices, desses há para aí livros em barda e até consta que são best-sellers. Enfim, não há a revolução, a revolução é impossível, mas pelo menos há flores, valha-me isso.
Sunday, May 10, 2020
Sem amor próprio...
Provavelmente, já poucos ou nenhuns se lembram. A frase rezava mais ou menos assim: "os portugueses têm de trabalhar mais e ganhar menos". Quem a proferiu foi um sujeito chamado Mira Amaral, ex-ministro de Cavaco Silva, com uma carreira subsequente brilhante, como empresário de "sucesso". O tipo disse isto, se não estou em erro, em 2010, há 10 anos, portanto. Curiosamente, o Google deve sofrer de alzheimer e não encontrei registo desta supimpa, suculenta declaração, feita numa televisão perto de si, se não estou em erro uma televisão "pública". Mas eu, é fodido, eu não sofro de alzheimer e, lá está, lembro-me. Hoje, temos mais do mesmo, embora, por enquanto, ainda ninguém se tenha atrevido a vir com a mesma lengalenga, por enquanto. No entanto, já anda por aí outra tese similar, não menos interessante, que reza assim: as pessoas têm de compatibilizar os riscos sanitários com os riscos económicos; i.e., vai trabalhar porque sem trabalho fodes-te e se morreres a trabalhar, azar o teu. Abram a Fox News e em Inglês a tese ainda soa melhor. Pois bem, eu vejo esta tese replicada por imensas pessoas, inclusive pessoas que me são próximas. Vai trabalhar, vai trabalhar. Sucede que, curiosamente, os proponentes destas ideias de vanguarda, arriscam pouco: é vê-los perorar a partir do conforto do lar, sim, porque ir para o meio da merda não lhes assiste. Ora, eu, eu acho mal. Parece-me que desenvolvo a minha atividade principal num ambiente de risco: lido (ou lidava) pessoalmente com muitas pessoas, pessoas de todo o país, pessoas do estrangeiro, que entram e que saem e que não sei de onde vieram e o que com elas trazem. A propósito, passei a manhã de hoje a estudar as diretrizes para meter outra vez o meu negócio principal a bombar. É que nem vos passa o delírio do normativo que encontrei mas, como sou um gajo porreiro, explico: tudo exprimido, terei de trabalhar o triplo para ganhar três vezes menos. Estão a ver como são os discursos da crise e como vão dar sempre ao mesmo? Assim sendo, lá está, vou reciclar-me, ou reinventar-me, como se diz agora. Teletrabalho comigo (até tenho as skills, até já o fiz), irei ganhar provavelmente o mesmo do que se continuasse armado em empresário hoteleiro de quinta categoria mas, ao menos, estarei mais protegido da segunda vaga, porque ela vem aí, oh se vem e quem se puder proteger, que se proteja, ou então que faça a revolução, que exija uma redistribuição equitativa da riqueza, fim dos off-shores, etc, etc. Como isso não vai acontecer, quero que se fodam os outros; a ver, este blogue até se chama o amor em tempos de covid, só que, sem amor próprio, no sir, no madam, nicht mein herr, nicht meine frau, não há amores outros que resistam.
Saturday, May 9, 2020
Thursday, May 7, 2020
And the lemon tree...
Sete de maio. Todas as coisas boas precisam das más para serem devidamente apreciadas. Mais dia menos dia, teremos de regressar à cidade. Àquela azáfama de loucos. Aos extraterrestres todos burkinados de máscara e nós também o teremos de fazer. Bela sociedade esta que aí vem. Como se não bastasse, diz que por lá ainda anda a pandemia, que o covid não se foi embora e que a única diferença é que, agora, agora pelo menos já têm lugar para nós na UCI, só para o caso. É um fraco consolo. Dar com os costados numa UCI, para mim, que já por lá passei várias vezes, não é pêra doce. Porém, terá de ser: o dinheiro e tal, vamos ter de o arrancar na cidade. De qualquer forma, enquanto vamos e não vamos, estamos por aqui e aqui, para além de muitas outras coisas boas, temos estas.
Wednesday, May 6, 2020
Se eu fosse "experto" seria rei do gamanço
Em primeiro lugar, vou já dizendo que não gosto de trabalhar. Que trabalhar é uma merda. Uma obrigação e que a maior parte de nós trabalha por dois ou três motivos. A saber, ou porque se não trabalharmos não temos hipótese de nos sustentarmos, ou porque não sabemos como ocupar o tempo que ficaria livre se não fosse o caso de trabalharmos, ou porque o trabalho permite (para meia dúzia) acumular riqueza e riqueza é igual a ter poder, a poder dar ordens e a mandar nos outros, a forçá-los a cumprir os nossos desejos. Tenho pena daqueles que trabalham pelo primeiro motivo, desdém pelos que trabalham pelo segundo e um profundo desprezo pelos que trabalham pelo terceiro.
É necessário trabalhar? Não, não é. Com os avanços da robótica e das inteligências artificiais, poucos de nós teriam de facto necessidade de trabalhar. Mas vendem-nos a ideia de que o trabalho é uma parte fundamental da vida. Nada de mais falso. Vendem-nos essa ideia para nos manterem na linha, para nos controlarem, são os tais que trabalham para acumular riqueza, não a redistribuírem e porem cangas nos outros, tais como a premissa de que o ócio é inimigo da virtude. Eis uma falácia muito útil, quando a verdade é diferente: é o ócio que permite que pensemos, é o ócio que faz com que nos apercebamos do quâo somos explorados, enganados, roubados.
Mas não, o que nos vendem é que trabalhar dá saúde e faz crescer e que, como recompensa, tomem lá umas semanitas de férias por ano em sítios de merda, a apanhar aviões de merda, todos diferentes mas todos iguais, todos iguazinhos, todos com o mesmo telefone estúpido, todos formatados no mesmo paradigma de lixo-luxo, o de que trabalhar é muito bom e que, se trabalharmos muito e formos muito dedicados, até teremos direito a time-sharing em cancun, ibiza ou noutro sítio de merda qualquer.
Claro está, a história da humanidade é feita de trabalho (quem fez as pirâmides, quem fez o empire state building, quem fez a hoover dam, quem fez as bombas atómicas e tal e quem com esses trabalhos alegre ou tristemente se escravizou).
A questão é que o trabalho é diferenciado, uns fazem o trabalho de merda, outros controlam os que fazem o trabalho de merda e outros ainda dão as linhas gerais (são os empreendedores) e, como dão as "linhas gerais", ficam com todos os frutos, deixam umas migalhas escorrer pela cadeia de trabalho, palavra muito elucidativa, e gozam à fartazana. A história do trabalho é a história do roubo. Fomos tão bem ou tal mal-sucedidos nessa história, a qual tem um nome, chama-se capitalismo, que, muito em breve a nossa casa, o planeta, nos vai mandar à merda sem apelo nem agravo (just wait and see).
Já eu, portanto, odeio trabalhar e só o faço porque me enquadro na categoria dos que trabalham pelo primeiro motivo que enunciei; trabalho porque, se não o fizer, boca, não tenho para comer, nem para comprar ao preço da uva mijona as roupas e a comida que os outros que ainda estão abaixo de mim produzem no bangladesh e afins. Não, eu gosto é de estudar e sei de ginjeira que, no mundo em que vivemos, fosse a riqueza distribuída de forma sã, poucos de nós teriam de trabalhar, a não ser trabalhar naquilo que de facto nos desse gozo. Por exemplo, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a terra, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a engenharia das coisas, gozo para o tipo que gosta, de facto, de tornar a vida dos outros menos desgastante, menos bangladeshiana. Mas tal não pode acontecer porque a acontecer a tal da cadeia do trabalho sofreria danos irreparáveis, nomeadamente para os que trabalham pelo gozo de impor aos outros a sua visão do mundo, o seu quero posso e mando, replicado pelos seus capatazes, os seus minions, até aos que, na verdade, fazem o trabalho duro e que, como é este o modelo, o que ambicionam, coitados, é querer, poder e mandar.
Ora, já eu, eu gosto de ler, gosto de compor música, gosto de estudar, gosto de pintar, de fotografar, gosto de escrever, gosto de fazer uma data de coisas, que não são “produtivas” e, ó pasmo, até gosto de viver: de comer, de ter tempo para descansar, de ter tempo para fazer amor. O meu problema é que, dizem-me, os de cima, que isso não é trabalho, que isso são “frescuras”, que isso são passatempos de gente preguiçosa, que o que eu mereço é cacete, é cangas atrás de cangas, miséria e tal, tudo embrulhado no axioma geral do “vai mas é trabalhar, ó seu malandro!”. Pois bem, aqui chegado, gostaria de deixar um desafio aos três ou quatro estaloras que acabarão por ler este apontamentozeco. Se isto que eu escrevinhei numa horita e meia, após semanas, para não dizer anos de estudo não é trabalho, é o quê? Hum? Fico à aguardar os vossos prestimosos contributos.
Já eu, portanto, odeio trabalhar e só o faço porque me enquadro na categoria dos que trabalham pelo primeiro motivo que enunciei; trabalho porque, se não o fizer, boca, não tenho para comer, nem para comprar ao preço da uva mijona as roupas e a comida que os outros que ainda estão abaixo de mim produzem no bangladesh e afins. Não, eu gosto é de estudar e sei de ginjeira que, no mundo em que vivemos, fosse a riqueza distribuída de forma sã, poucos de nós teriam de trabalhar, a não ser trabalhar naquilo que de facto nos desse gozo. Por exemplo, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a terra, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a engenharia das coisas, gozo para o tipo que gosta, de facto, de tornar a vida dos outros menos desgastante, menos bangladeshiana. Mas tal não pode acontecer porque a acontecer a tal da cadeia do trabalho sofreria danos irreparáveis, nomeadamente para os que trabalham pelo gozo de impor aos outros a sua visão do mundo, o seu quero posso e mando, replicado pelos seus capatazes, os seus minions, até aos que, na verdade, fazem o trabalho duro e que, como é este o modelo, o que ambicionam, coitados, é querer, poder e mandar.
Ora, já eu, eu gosto de ler, gosto de compor música, gosto de estudar, gosto de pintar, de fotografar, gosto de escrever, gosto de fazer uma data de coisas, que não são “produtivas” e, ó pasmo, até gosto de viver: de comer, de ter tempo para descansar, de ter tempo para fazer amor. O meu problema é que, dizem-me, os de cima, que isso não é trabalho, que isso são “frescuras”, que isso são passatempos de gente preguiçosa, que o que eu mereço é cacete, é cangas atrás de cangas, miséria e tal, tudo embrulhado no axioma geral do “vai mas é trabalhar, ó seu malandro!”. Pois bem, aqui chegado, gostaria de deixar um desafio aos três ou quatro estaloras que acabarão por ler este apontamentozeco. Se isto que eu escrevinhei numa horita e meia, após semanas, para não dizer anos de estudo não é trabalho, é o quê? Hum? Fico à aguardar os vossos prestimosos contributos.
Monday, May 4, 2020
Sunday, May 3, 2020
Vida de limpador de sanitas em tempos de covid
Falei hoje com um amigo que está preso no México, um dos melhores, uma gajo fabuloso, "preso" num paraíso isolado na costa do Pacífico há três meses. Agora, com o cansaço e ausência da família, já lhe apetece voltar mas, apoios para voltar? Sim, a embaixada diz que lhe paga o táxi até ao aeroporto. Ahahah. Preço do voo de regresso: 1000 biscas, era 250 biscas em Janeiro e ainda assim corre o risco de chegar à Cidade do México e ver o voo cancelado, estão a ver a coisa (Cidade do México, 20 milhões de habitantes, voo a preço de ouro cancelado)? Descer preços? Como aconselha um dos meus parceiros de negócio? Moi? Descer preços mas é a puta que pariu. Ainda vou tendo uma suada reserva de cash, do tempo em que andei, literalmente, a limpar sanitas, não estou no gozo, temos pena, foram muitas sanitas, na altura isso não implicava risco de vida (era só limpar merda alheia) e não estou na tanga, limpei sanitas para ninguém botar defeito, fui mulher a dias, gestor de sites, anfitrião, cozinheiro, relações públicas, etc, etc. E ai de quem se meter entre mim e a minha reserva de cash, cuidado comigo, que tenho tendência a agir como gato quando se encosta um gato à parede. Não, vou é subir preços, e vou subir a 100 ou até a 150 por cento. Quem quiser, quer, quem não quiser que vá passar férias onde lhe apetecer, tenho guita até ao final do ano, depois logo se vê. Se não tiver clientes, melhor ainda, aproveito o meu espaço para viver, para viver e não para limpar sanitas. Posso? Posso, repito, limpei muitas sanitas e estou disposto a voltar a fazê-lo, mas não se isso significa arriscar a vida.
Covid do dia
Criemos de cada gesto um renascer
Tornemos de cada flor um fascínio
De cada sorriso sonhemos um esplendor
De cada passo a dar troquemos um afeto
De cada verbo dito ou por dizer plantemos um amor.
Saturday, May 2, 2020
Cenas da vida no campo
Quando viemos para o campo trouxe tudo e mais alguma coisa mas, claro, o carregador do meu portátil ficou pela cidade e agora tenho que usar o da A. O chato é que tem um teclado diferente, lembram-se das máquinas de escrever Qwerty e das Azerty? Pois, para se lembrarem, precisavam de ter vivido numa outra época, uma época sem computadores, sem net, talvez uma época mais genuína. Mas, é mais ou menos bom, chato isto de ter de me habituar a um teclado diferente, porém, pelo menos, recebo cumprimentos do género: "és o meu adónis, imbecil, o meu deus supremo da beleza". Claro que, é na brincadeira, conquanto, brincadeira ou não, compense isto do pc ter um teclado de merda. Não que seja importante, não tenho muito para escrever, é divertido estar aqui e o tempo está a colaborar e o medo, sim, o medo desaparece, um tipo sai de calções, dá uns belos duns passeios, come melhor ainda, num jardim de sonho, amanhã uns belos duns mergulhos e até dá para ir tirando umas fotos, sem preocupação, em liberdade, de mãos livres.
Friday, May 1, 2020
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