Já repararam bem nas
implicações culturais desta doença? Já repararam que é pior do que foi a SIDA na
década de 1980? Eu passei por isso, pela década de 1980, e lembro-me bem do que
a SIDA fez às relações românticas, da força que deu aos puritanismos sexuais e
do impacto que isso teve na vida sexual de milhões de jovens, eu próprio incluído.
Mas isto é pior. A covid está muito para lá de se ir para a cama com outra ou mais
pessoas. A promiscuidade redefine-se agora ao se atingir um novo patamar de risco. Agora
não se trata de ir para a cama com A ou com B ou ambos. Esta doença afasta-nos de tudo e
de todos. Dos que nos são mais próximos e dos outros, dos quais no novo normal regra geral fugimos. Em última
análise, a covid representará uma mudança radical de paradigma, adeus beijos e
abraços, vamos para um paradigma em que estaremos perto, sim, à distância de um
clique, e em simultâneo estaremos longe, muito longe, inodoros, a dois metros de distância, na
melhor das hipóteses, e sempre desconfiados, sempre com medo do contacto físico,
de estarmos – verdadeiramente – uns com
os outros.

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