Quando eu era moço, havia
uma coisa chamada guerra fria. Por trás da guerra fria havia uma ameaça
terrível que nos era instilada desde meninos pela comunicação social da época:
a ameaça de um holocausto nuclear. Ainda muito novinho, assisti a um filme
chamado The Day After, um filme gráfico que, ao vivo e a cores, nos mostrava
quais as consequências de uma guerra nuclear. Recordo um terrível pesadelo, já
quando andava na escola secundária. Sonhei que tinha sido declarada a guerra,
que todos os alunos da escola se tinham acolhido ao pavilhão gimnodesportivo.
Que, então, caíra primeiro uma bomba nuclear em Espanha, Madrid. Recordo o
nosso pânico. Então, explodiu outra em Lisboa, na onda de choque o pavilhão voou.
Acordei. Suado. Teria 13 anos. Hoje, também tive um pesadelo. Sonhei que estava
em Lisboa, no metro, na estação do oriente, de repente, sem mais. Que ninguém
estava a usar máscara, que havia imensas pessoas e que eu me tinha esquecido da
minha máscara, que também não tinha máscara. Tentei safar-me da estação, subir
à superfície não pela escada rolante, não, sempre encostado à parede, com a
cara na parede, sem a tocar e que, quando estava quase, quase à saída, uma multidão de
pessoas descia em minha direção, todas sem máscara. Acordei, suado. Tenho 49
anos.
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