(...) Boas perguntas. Estou em crer que esse processo de desagregação e de destruição da democracia se iniciou com a queda do muro de Berlim. Não estou a defender o modelo soviético mas, até este colapsar, as elites financeiras europeias e norte-americanas, os donos do chamado “mundo ocidental”, tinham de dar migalhas a todos os seus cidadãos, sobretudo aos que pouco ou nada tinham, porque caso contrário estes viravam-se para o outro lado, abraçavam o comunismo que, na sua síntese teórica (não na prática, como depois se verificou), oferecia uma visão muito mais justa do mundo e da sociedade. A atracção do comunismo verificou-se sobremaneira em França e em Itália (muito menos no "altar" da democracia, os EUA, país em que o partido foi proibido). Em França e Itália, onde fortes partidos comunistas obrigaram as elites a fornecer aos eleitorados razões para permanecerem na esfera do capitalismo, houve a oportunidade de alterar o jogo dessas elites financeiras e grande parte do mundo, até os EUA, tiveram de ir por arrasto, caso contrário a revolução bater-lhes-ia à porta com grande vigor. Foi por causa da atracção do comunismo que as elites financeiras do ocidente tiveram de fazer concessões.
Não fossem os sucessos percepcionados do comunismo e o ocidente não teria de criar, com ou sem engulho, o estado social, de dar direitos (suados) ao zé povinho, de passar a pagar condignamente o trabalho, de consagrar liberdades (não só formais), de criar sistemas universais de saúde e de educação. Aliás, daí decorreu igualmente o quarto pilar da CEE, o da Solidariedade (o qual tão anda pelas ruas da amargura desde os tempos da UE e que quando há 30 anos eu era um jovem estudante tinha direito a um manual de 400 páginas, mesmo numa universidade privada).
Com a queda do comunismo, a elite financeira do lado de cá (quem realmente conta porque é quem controla os media e quem elege os políticos), ficou à vontade para fazer o que bem desejava. Para além de esmagar regimes que lhe desagradavam, começou a promover para os seus eleitorados uma agenda consumista e, acima de tudo, individualista. A igualdade passou completamente para segundo plano, idolatrando-se ao invés uma suposta liberdade individual. Toda uma máquina cultural exportada a partir dos EUA se dedicou e se dedica a esse serviço, os valores de Hollywood são os valores do individualismo primário e da violência (basta ficar um mês de quarentena com televisão por cabo para perceber que o discurso do entretenimento é todo igual e que esse discurso estabelece as aspirações da sociedade global). Essas doses maciças de endoutrinamento cultural, associadas a uma revisão linguística, ou nova linguagem, em que por exemplo trabalhadores deixaram de o ser e passaram a ser "colaboradores", levaram a uma crescente atomização social, a um primado de cada um por si e os outros que façam por eles próprios, de adquirir mais e mais coisas de que antes não se tinha necessidade alguma, de poluir, sendo que os mercados tudo se encarregariam de nivelar. Com o tempo e com as crises económicas, o modelo foi provando as suas contradições.
Com Reagan e Tatcher começou o ataque ao estado social. O ataque à educação e à saúde tendencialmente gratuitas, aos transportes públicos, às energias e águas públicas, mas tudo teria corrido bem não fossem as crises económicas. Num primeiro momento, tudo eram flores, o fim da história de Fukuyama: havia dinheiro, prosperidade, o comunismo estava morto, não havia alternativa, havia o suficiente para todos os cidadãos se endividarem, para terem casa "própria", automóveis, créditos pessoais, seguros privados, uma bonanza de prosperidade. No entanto, com a crise de 2008, tudo mudou. As pessoas começaram a duvidar da democracia: para quê votar se o resultado seria quase sempre o mesmo, mais desemprego, mais dívida, menos rendimento? Daí até o ressurgimento dos populistas como trump e bolsonaro, que vinham respaldados por elites financeiras, de soluções fáceis e milagrosas, foi um pulinho.
Agora, quanto ao que podemos/devemos fazer, enquanto comuns cidadãos dotados de mais do que um neurónio, para além de estarmos vigilantes, pois não sei. Numa sociedade totalmente dominada pelo individualismo e pelo consumismo, o que podem cidadãos como nós fazer? Temos dinheiro para lançar um canal de televisão? Um jornal? Dinheiro para pagar a publicidade necessária para que esses meios cheguem a públicos vastos? Como a Fox News ou como, a nível doméstico, O Observador ou o grupo Cofina? Não temos.
A realidade hoje é que o dinheiro é o único valor, a solidariedade desapareceu das cadeiras de estudos europeus das universidades. Voltando ao básico: onde estão hoje as cooperativas? Como aquela que fundou a seguir ao 25 de Abril um órgão de comunicação ao serviço da democracia como era O Jornal? Desapareceram, foram liquidadas; por quem e porquê? Quem é que controla os media? O que é que estes vendem? Neste cenário, o que é possível fazer? Acção armada? Entrar pelo New York Stock Exchange, pelo DAX, pela City e abater os gajos todos? Para além de ser dificílimo de executar, o que é que isso adiantaria, fora a morte de uns quantos inocentes? Sermos depois abatidos e para sempre carregarmos o anátema de sermos "terroristas"? Transformar os mercados em mártires para que reabrissem no dia seguinte, ainda mais desregulados?
Eu, numa socieadade em que até a família se atomizou, faço o que posso, tento passar a minha mensagem e no meu trato com as pessoas do meu círculo directo tento ser o mais aberto e justo possível. Fora isso, também tenho uma vida, estou dentro do sistema, vivo e dependo do sistema, e o sistema o que me diz é que tenho de andar bem comportadinho, não fazer ondas e ir cheio de sorte se no fim do mês tiver dinheiro para as contas, porque almoços grátis há, por exemplo para as grandes empresas, para os bancos, para as companhias aéreas, para o Elon Musk da Tesla e a sua desobediência civil, etc, etc, que já se prepararam para receber bailouts chorudos, que os bónus dos big businesses têm de ser pagos: nisso, nisso não se pode tocar. Mas, para mim, para nós, os vulgares, os descartáveis, quais almoços grátis? Isso é que era bom. Portanto, não basta estarmos vigilantes e eu concordo, mas que mais podemos fazer? Pouco e a verdade é que por trás de cada trump há mil bolsonaros, por trás de mil bolsonaros há calhaus de orbans e que, a nível doméstico, há cada vez mais venturas. Como os travar, quando foi uma democracia TINA (There Is No Alternative) que os fez florescer? Não sei, mas estou aberto a sugestões. (...)
Um obrigado a Helena Araújo, cujas perguntas simples e directas motivaram esta humilde reflexão.
















