Wednesday, May 13, 2020

O triunfo dos porcos?

(...) Boas perguntas. Estou em crer que esse processo de desagregação e de destruição da democracia se iniciou com a queda do muro de Berlim. Não estou a defender o modelo soviético mas, até este colapsar, as elites financeiras europeias e norte-americanas, os donos do chamado “mundo ocidental”, tinham de dar migalhas a todos os seus cidadãos, sobretudo aos que pouco ou nada tinham, porque caso contrário estes viravam-se para o outro lado, abraçavam o comunismo que, na sua síntese teórica (não na prática, como depois se verificou), oferecia uma visão muito mais justa do mundo e da sociedade. A atracção do comunismo verificou-se sobremaneira em França e em Itália (muito menos no "altar" da democracia, os EUA, país em que o partido foi proibido). Em França e Itália, onde fortes partidos comunistas obrigaram as elites a fornecer aos eleitorados razões para permanecerem na esfera do capitalismo, houve a oportunidade de alterar o jogo dessas elites financeiras e grande parte do mundo, até os EUA, tiveram de ir por arrasto, caso contrário a revolução bater-lhes-ia à porta com grande vigor. Foi por causa da atracção do comunismo que as elites financeiras do ocidente tiveram de fazer concessões. 
Não fossem os sucessos percepcionados do comunismo e o ocidente não teria de criar, com ou sem engulho, o estado social, de dar direitos (suados) ao zé povinho, de passar a pagar condignamente o trabalho, de consagrar liberdades (não só formais), de criar sistemas universais de saúde e de educação. Aliás, daí decorreu igualmente o quarto pilar da CEE, o da Solidariedade (o qual tão anda pelas ruas da amargura desde os tempos da UE e que quando há 30 anos eu era um jovem estudante tinha direito a um manual de 400 páginas, mesmo numa universidade privada). 
Com a queda do comunismo, a elite financeira do lado de cá (quem realmente conta porque é quem controla os media e quem elege os políticos), ficou à vontade para fazer o que bem desejava. Para além de esmagar regimes que lhe desagradavam, começou a promover para os seus eleitorados uma agenda consumista e, acima de tudo, individualista. A igualdade passou completamente para segundo plano, idolatrando-se ao invés uma suposta liberdade individual. Toda uma máquina cultural exportada a partir dos EUA se dedicou e se dedica a esse serviço,  os valores de Hollywood são os valores do individualismo primário e da violência (basta ficar um mês de quarentena com televisão por cabo para perceber que o discurso do entretenimento é todo igual e que esse discurso estabelece as aspirações da sociedade global). Essas doses maciças de endoutrinamento cultural, associadas a uma revisão linguística, ou nova linguagem, em que por exemplo trabalhadores deixaram de o ser e passaram a ser "colaboradores", levaram a uma crescente atomização social, a um primado de cada um por si e os outros que façam por eles próprios, de adquirir mais e mais coisas de que antes não se tinha necessidade alguma, de poluir, sendo que os mercados tudo se encarregariam de nivelar. Com o tempo e com as crises económicas, o modelo foi provando as suas contradições. 
Com Reagan e Tatcher começou o ataque ao estado social. O ataque à educação e à saúde tendencialmente gratuitas, aos transportes públicos, às energias e águas públicas, mas tudo teria corrido bem não fossem as crises económicas. Num primeiro momento, tudo eram flores, o fim da história de Fukuyama: havia dinheiro, prosperidade, o comunismo estava morto, não havia alternativa, havia o suficiente para todos os cidadãos se endividarem, para terem casa "própria", automóveis, créditos pessoais, seguros privados, uma bonanza de prosperidade. No entanto, com a crise de 2008, tudo mudou. As pessoas começaram a duvidar da democracia: para quê votar se o resultado seria quase sempre o mesmo, mais desemprego, mais dívida, menos rendimento? Daí até o ressurgimento dos populistas como trump e bolsonaro, que vinham respaldados por elites financeiras, de soluções fáceis e milagrosas, foi um pulinho. 
Agora, quanto ao que podemos/devemos fazer, enquanto comuns cidadãos dotados de mais do que um neurónio, para além de estarmos vigilantes, pois não sei. Numa sociedade totalmente dominada pelo individualismo e pelo consumismo, o que podem cidadãos como nós fazer? Temos dinheiro para lançar um canal de televisão? Um jornal? Dinheiro para pagar a publicidade necessária para que esses meios cheguem a públicos vastos? Como a Fox News ou como, a nível doméstico, O Observador ou o grupo Cofina? Não temos. 
A realidade hoje é que o dinheiro é o único valor, a solidariedade desapareceu das cadeiras de estudos europeus das universidades. Voltando ao básico: onde estão hoje as cooperativas? Como aquela que fundou a seguir ao 25 de Abril um órgão de comunicação ao serviço da democracia como era O Jornal? Desapareceram, foram liquidadas; por quem e porquê? Quem é que controla os media? O que é que estes vendem? Neste cenário, o que é possível fazer? Acção armada? Entrar pelo New York Stock Exchange, pelo DAX, pela City e abater os gajos todos? Para além de ser dificílimo de executar, o que é que isso adiantaria, fora a morte de uns quantos inocentes? Sermos depois abatidos e para sempre carregarmos o anátema de sermos "terroristas"? Transformar os mercados em mártires para que reabrissem no dia seguinte, ainda mais desregulados? 
Eu, numa socieadade em que até a família se atomizou, faço o que posso, tento passar a minha mensagem e no meu trato com as pessoas do meu círculo directo tento ser o mais aberto e justo possível. Fora isso, também tenho uma vida, estou dentro do sistema, vivo e dependo do sistema, e o sistema o que me diz é que tenho de andar bem comportadinho, não fazer ondas e ir cheio de sorte se no fim do mês tiver dinheiro para as contas, porque almoços grátis há, por exemplo para as grandes empresas, para os bancos, para as companhias aéreas, para o Elon  Musk da Tesla e a sua desobediência civil, etc, etc, que já se prepararam para receber bailouts chorudos, que os bónus dos big businesses têm de ser pagos: nisso, nisso não se pode tocar. Mas, para mim, para nós, os vulgares, os descartáveis, quais almoços grátis? Isso é que era bom. Portanto, não basta estarmos vigilantes e eu concordo, mas que mais podemos fazer? Pouco e a verdade é que por trás de cada trump há mil bolsonaros, por trás de mil bolsonaros há calhaus de orbans e que, a nível doméstico, há cada vez mais venturas. Como os travar, quando foi uma democracia TINA (There Is No Alternative) que os fez florescer? Não sei, mas estou aberto a sugestões. (...)

Um obrigado a Helena Araújo, cujas perguntas simples e directas motivaram esta humilde reflexão.

Tuesday, May 12, 2020

Esta terra...

Esta terra é minha 
Esta terra é da minha mãe 
Esta terra é do meu pai 
Esta terra é do meu irmão 
Esta terra é da minha Ana 
Esta terra é do meu Lipe 
Esta terra é do meu Yago 
Esta terra é da minha Ticha 
Esta terra é da minha Fox. 

Esta terra não foi roubada 
Este terra foi comprada 
Esta terra tem nela amor 
Esta terra é dos coelhos 
 Esta terra é dos matos 
 Esta terra é dos sobreiros 
Esta terra é das borboletas 
Esta terra é das flores 
Esta terra é dos pinheiros. 

Esta é a minha terra 
Mas se esta terra é minha 
Eu sou dela e esta terra... 
Esta terra não é de ninguém 
Esta terra é dela, é terra que... 
É terra que pertence à Terra.








Monday, May 11, 2020

Delito por delito, com carinho

Como sabem os poucos que me lêem, não sou tipo para me ficar quando detecto incongruências e sobretudo que não me fico porque tenho memória de elefante. Isto vem a propósito de um organizador de um blogue colectivo, blogue esse que dá pelo nome de Delito de Opinião, uma coisa assim a atirar para as direitas, mas aparentemente séria, uma espécie de albergue espanhol, que tão depressa tem autores com algum calibre, como tem incongruências mais ou menos sofisticadas, como o seu organizador e principal dinamizador, um jornalista chamado Pedro Correia. O curioso no delito é isso mesmo: uma alegada pluralidade, uma vasta legião de leitores, uma série de autores, uns mais ou menos honestos e outros menos, um tal de desonesto rui rocha que me vem à memória, e o Pedro Correia. Conheci o delito há muitos anos, ainda eu andava a brincar às blogoesferas e cheirou-me logo a esturro, apesar de, ao longo dos anos, por lá ter lido coisas interessantes, inclusivamente coisas escritas pelo próprio Pedro Correia, escritas por outras pessoas tão ou mais decentes, sendo que muitas destas se foram desvinculando do  delito, que não passava, nas entrelinhas, de uma agenda fashionable para favorecer certas e determinadas clientelas. À medida que esses "colaboradores" iam percebendo a orientação falaciosa do organizador do blogue em questão, mais ou menos graciosamente, iam-se desvinculando do mesmo: o autor de Crónicas do Rochedo, o saudoso Carlos, foi um deles. Então, houve um dia em que uma pessoa que me é próxima, doutorada em filosofia política, foi achincalhada na caixa de comentários, por Pedro Correia. Eu ia lendo a coisa, piando fininho, porque é importante perceber o que pensam os estrategistas da direita subtil e oportunista. Cerca de 2009, Pedro Correia, com a ajuda de compagnons de route úteis, lançou-se na perseguição ao governo socialista da época, com unhas e dentes. Sabemos todos o que aconteceu em seguida; Portugal foi de vela (como irá agora), veio o passos, o gaspar e o relvas. O que poucos sabem, até porque Pedro Correia faz questão de ocultar o seu passado, é que nos anos da troika houve quem tivesse arranjado tachos (pessoas) muito bem remunerados, via Avenida de Roma e activas colaborações em inventonas ignomiosas, como a de Belém, preparada numa mesa do Café Luanda, na referida Avenida de Roma, à pala da austeridade por que então à direita tanto se ansiava. Uma dessas pessoas, conquanto não o possa provar, terá sido o próprio Pedro Correia, o qual foi (e isto é um facto), na sequência da "bancarrota", para assessor de miguel relvas, a ganhar três mil euros limpos/mês à conta, penso eu, de manter um blogue de referência "pluralista", enquanto o resto da malta suava as estopinhas com a história de que vivíamos acima das nossas possibilidades. Dito isso, nada tenha contra Pedro Correia, nem contra o Delito de Opinião. De tempos a tempos, o Pedro Correia até faz serviço público e outros autores há no delito que gosto bastante de ler, por exemplo Teresa Ribeiro, uma pessoa que me parece séria, bem como muitos outros. Mas tenho memória de elefante e chateiam-me outros indivíduos que são como a anedota do médico: faz aquilo que eu digo, não faças aquilo que eu faço.

O cigano da 13ª Hora


(...) Olívio saiu do hospital e dirigiu-se ao automóvel, um potente citroen XM preto que tinha deixado mal estacionado. Quando chegou ao carro estava uma multa no pára-brisas. Sorriu encantado, tirou a multa, rasgou-a em pedacinhos e deixou que o vento se encarregasse do resto. Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e fez-se à auto-estrada do Norte. Em hora e meia estaria em Castelo de Bode. Quando lá chegasse teria de ter cuidado para não ser visto pelo miúdo. Aquela história cada vez lhe agradava menos. Não tinha problemas nenhuns em ter despachado ainda na noite anterior três putas. Uma que engatara no Intendente, e outras duas no Caís do Sodré. A única que lhe custara um pouco fora a a última, chamava-se Telma e era bonita. Mas Olívio era um homem religioso e dizia sempre uma oração fúnebre pelas suas vítimas. Por outro lado, consolava-o o facto de que fossem putas e não mulheres sérias. Toda a gente sabia que as putas são a escória da terra, e que uma puta morta não faz falta a ninguém. Não era tê-las morto o que o incomodava. Era o que estavam a fazer ao miúdo: os choques sucessivos que lhe tinham preparado, com uma frieza que nem em África o capitão Califa tinha demonstrado. O automóvel corria velozmente pela A1. A mente de Olívio vogava agora no mar do passado. Aos 17 anos cometera o maior erro que um cigano podia cometer: deitara-se na palha com uma rapariga de outro clã e por isso tivera de fugir. Jovem, irrequieto e com sede de aventura alistara-se nos Comandos. Esse fora o seu segundo maior erro de sempre. A guerra em África estava ao rubro e um cigano nos Comandos não tinha vida fácil. Era ainda pior do que ser um negro. Durante o curso de instrução na Metrópole comera o pão que o diabo amassara, mas fizera-se um homem forte, temido e inflexível. Superiores e camaradas, todos o tinham tratado com desprezo e violência. Durante um exercício, um filho da puta de um sargento de instrução dera-lhe mesmo um tiro a valer e a sorte foi que apenas lhe acertara de raspão. O sargento alegou desconhecer que a arma estava carregada e safara-se com uma mera reprimenda. (...)
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Não há revolução? Há flores

Pensar que um tipo como eu, quase aos cinquenta, estaria hoje a reler autores tidos pelo paradigma vigente como proscritos, autores quase impossíveis de encontrar, autores que lia nos meus vintes, autores como Marx, como Bakunin, como Proudhon. Que reencontro este de ver os sublinhados e as notas que fiz há trinta anos no capítulo sobre as mais valias do Marx em O Capital, os pontos de interrogação no Prólogo de Filosofia da Miséria de Proudhom e as máximas de Bakunin traduzidas do russo para o francês, l'uniformité c'est la mort, la diversité c'est la vie. Realmente, é estranho, mas também é salutar e ajuda a compreender o ponto a que chegámos e o porquê de nos encontrarmos num beco sem saída: é porque ninguém lê esses tipos, porque gostamos mais de Friedman, de Fukuyama e dos seus apêndices, desses há para aí livros em barda e até consta que são best-sellers. Enfim, não há a revolução, a revolução é impossível, mas pelo menos há flores, valha-me isso.
















Sunday, May 10, 2020

Sem amor próprio...

Provavelmente, já poucos ou nenhuns se lembram. A frase rezava mais ou menos assim: "os portugueses têm de trabalhar mais e ganhar menos". Quem a proferiu foi um sujeito chamado Mira Amaral, ex-ministro de Cavaco Silva, com uma carreira subsequente brilhante, como empresário de "sucesso". O tipo disse isto, se não estou em erro, em 2010, há 10 anos, portanto. Curiosamente, o Google deve sofrer de alzheimer e não encontrei registo desta supimpa, suculenta declaração, feita numa televisão perto de si, se não estou em erro uma televisão "pública". Mas eu, é fodido, eu não sofro de alzheimer e, lá está, lembro-me. Hoje, temos mais do mesmo, embora, por enquanto, ainda ninguém se tenha atrevido a vir com a mesma lengalenga, por enquanto. No entanto, já anda por aí outra tese similar, não menos interessante, que reza assim: as pessoas têm de compatibilizar os riscos sanitários com os riscos económicos; i.e., vai trabalhar porque sem trabalho fodes-te e se morreres a trabalhar, azar o teu. Abram a Fox News e em Inglês a tese ainda soa melhor. Pois bem, eu vejo esta tese replicada por imensas pessoas, inclusive pessoas que me são próximas. Vai trabalhar, vai trabalhar. Sucede que, curiosamente, os proponentes destas ideias de vanguarda, arriscam pouco: é vê-los perorar a partir do conforto do lar, sim, porque ir para o meio da merda não lhes assiste. Ora, eu, eu acho mal. Parece-me que desenvolvo a minha atividade principal num ambiente de risco: lido (ou lidava) pessoalmente com muitas pessoas, pessoas de todo o país, pessoas do estrangeiro, que entram e que saem e que não sei de onde vieram e o que com elas trazem. A propósito, passei a manhã de hoje a estudar as diretrizes para meter outra vez o meu negócio principal a bombar. É que nem vos passa o delírio do normativo que encontrei mas, como sou um gajo porreiro, explico: tudo exprimido, terei de trabalhar o triplo para ganhar três vezes menos. Estão a ver como são os discursos da crise e como vão dar sempre ao mesmo? Assim sendo, lá está, vou reciclar-me, ou reinventar-me, como se diz agora. Teletrabalho comigo (até tenho as skills, até já o fiz), irei ganhar provavelmente o mesmo do que se continuasse armado em empresário hoteleiro de quinta categoria mas, ao menos, estarei mais protegido da segunda vaga, porque ela vem aí, oh se vem e quem se puder proteger, que se proteja, ou então que faça a revolução, que exija uma redistribuição equitativa da riqueza, fim dos off-shores, etc, etc. Como isso não vai acontecer, quero que se fodam os outros; a ver, este blogue até se chama o amor em tempos de covid, só que, sem amor próprio, no sir, no madam, nicht mein herr, nicht meine frau, não há amores outros que resistam.

Saturday, May 9, 2020

Covid do dia



Tira a porra da máscara, por favor, tira a porra da máscara e despe-te.