Provavelmente, já poucos ou nenhuns se lembram. A frase rezava mais ou menos assim: "os portugueses têm de trabalhar mais e ganhar menos". Quem a proferiu foi um sujeito chamado Mira Amaral, ex-ministro de Cavaco Silva, com uma carreira subsequente brilhante, como empresário de "sucesso". O tipo disse isto, se não estou em erro, em 2010, há 10 anos, portanto. Curiosamente, o Google deve sofrer de alzheimer e não encontrei registo desta supimpa, suculenta declaração, feita numa televisão perto de si, se não estou em erro uma televisão "pública". Mas eu, é fodido, eu não sofro de alzheimer e, lá está, lembro-me. Hoje, temos mais do mesmo, embora, por enquanto, ainda ninguém se tenha atrevido a vir com a mesma lengalenga, por enquanto. No entanto, já anda por aí outra tese similar, não menos interessante, que reza assim: as pessoas têm de compatibilizar os riscos sanitários com os riscos económicos; i.e., vai trabalhar porque sem trabalho fodes-te e se morreres a trabalhar, azar o teu. Abram a Fox News e em Inglês a tese ainda soa melhor. Pois bem, eu vejo esta tese replicada por imensas pessoas, inclusive pessoas que me são próximas. Vai trabalhar, vai trabalhar. Sucede que, curiosamente, os proponentes destas ideias de vanguarda, arriscam pouco: é vê-los perorar a partir do conforto do lar, sim, porque ir para o meio da merda não lhes assiste. Ora, eu, eu acho mal. Parece-me que desenvolvo a minha atividade principal num ambiente de risco: lido (ou lidava) pessoalmente com muitas pessoas, pessoas de todo o país, pessoas do estrangeiro, que entram e que saem e que não sei de onde vieram e o que com elas trazem. A propósito, passei a manhã de hoje a estudar as diretrizes para meter outra vez o meu negócio principal a bombar. É que nem vos passa o delírio do normativo que encontrei mas, como sou um gajo porreiro, explico: tudo exprimido, terei de trabalhar o triplo para ganhar três vezes menos. Estão a ver como são os discursos da crise e como vão dar sempre ao mesmo? Assim sendo, lá está, vou reciclar-me, ou reinventar-me, como se diz agora. Teletrabalho comigo (até tenho as skills, até já o fiz), irei ganhar provavelmente o mesmo do que se continuasse armado em empresário hoteleiro de quinta categoria mas, ao menos, estarei mais protegido da segunda vaga, porque ela vem aí, oh se vem e quem se puder proteger, que se proteja, ou então que faça a revolução, que exija uma redistribuição equitativa da riqueza, fim dos off-shores, etc, etc. Como isso não vai acontecer, quero que se fodam os outros; a ver, este blogue até se chama o amor em tempos de covid, só que, sem amor próprio, no sir, no madam, nicht mein herr, nicht meine frau, não há amores outros que resistam.
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