Monday, May 11, 2020

O cigano da 13ª Hora


(...) Olívio saiu do hospital e dirigiu-se ao automóvel, um potente citroen XM preto que tinha deixado mal estacionado. Quando chegou ao carro estava uma multa no pára-brisas. Sorriu encantado, tirou a multa, rasgou-a em pedacinhos e deixou que o vento se encarregasse do resto. Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e fez-se à auto-estrada do Norte. Em hora e meia estaria em Castelo de Bode. Quando lá chegasse teria de ter cuidado para não ser visto pelo miúdo. Aquela história cada vez lhe agradava menos. Não tinha problemas nenhuns em ter despachado ainda na noite anterior três putas. Uma que engatara no Intendente, e outras duas no Caís do Sodré. A única que lhe custara um pouco fora a a última, chamava-se Telma e era bonita. Mas Olívio era um homem religioso e dizia sempre uma oração fúnebre pelas suas vítimas. Por outro lado, consolava-o o facto de que fossem putas e não mulheres sérias. Toda a gente sabia que as putas são a escória da terra, e que uma puta morta não faz falta a ninguém. Não era tê-las morto o que o incomodava. Era o que estavam a fazer ao miúdo: os choques sucessivos que lhe tinham preparado, com uma frieza que nem em África o capitão Califa tinha demonstrado. O automóvel corria velozmente pela A1. A mente de Olívio vogava agora no mar do passado. Aos 17 anos cometera o maior erro que um cigano podia cometer: deitara-se na palha com uma rapariga de outro clã e por isso tivera de fugir. Jovem, irrequieto e com sede de aventura alistara-se nos Comandos. Esse fora o seu segundo maior erro de sempre. A guerra em África estava ao rubro e um cigano nos Comandos não tinha vida fácil. Era ainda pior do que ser um negro. Durante o curso de instrução na Metrópole comera o pão que o diabo amassara, mas fizera-se um homem forte, temido e inflexível. Superiores e camaradas, todos o tinham tratado com desprezo e violência. Durante um exercício, um filho da puta de um sargento de instrução dera-lhe mesmo um tiro a valer e a sorte foi que apenas lhe acertara de raspão. O sargento alegou desconhecer que a arma estava carregada e safara-se com uma mera reprimenda. (...)
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3 comments:

  1. E como comentei lá, vai continuar, certo? Quando e onde?

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  2. Bom dia Redonda,
    Não tinha verificado os comentários lá, sim, têm dois finais distintos e o caso é que ainda não decidi por qual optar, para a semana já devo postar o décimo e último capítulo. :-)

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  3. Vou ficar à espera!
    Bom final de Domingo
    Gábi

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