Quando pus o pé fora da casa do meu amigo naquela manhã morna de final de Primavera, estava longe de imaginar a proposta a que os meus pés me guiariam. No final de tarde anterior, o meu ego recebera um boost de confiança: no court das traseiras da casa que em tempo de confinamento ficara abandonado, abatera o meu parceiro de ténis com umas bolas certeiras, dera-lhe uma lição, não sem retirar dessa partida conhecimentos preciosos para o futuro (nomeadamente higienizar bolas e raquetes antes e depois).
Não obstante a sua derrota, fora cortês o suficiente para me dar guarida, com a contrapartida de que a confecção do jantar ficasse por minha conta. Assim me encontrava nessa manhã, com uma ressaca que me deixava tépido, pachorrento, mas com a presença de espírito necessária para não me permitir negligenciar as responsabilidades, as do trajecto até casa e as que me aguardavam no tele-trabalho do lar.
Sentado nos degraus da estação, completamente às moscas, depois de por telefone ter partilhado angústias com antigos colegas de profissão, fumava um cigarro que se consumia com indulgência. Esfumava-se com a lentidão de um cigarro que nunca conheceu pressas, afazeres, angústias, cuidados ou responsabilidades. Obriguei-o a apressar-se, puxei com baforadas persistentes, mau-grado a sua resistência. Demasiado tabaco, demasiado prensado.
A hora do comboio aproximava-se. Cinco minutos. A estação às moscas. Decidi que atirá-lo ao chão seria falta de civismo, muito embora estivesse um pouco impaciente, pelo que passei os olhos pelos arredores até estes me levarem ao caixote mais próximo. Esmaguei-o com o sapato, levei gel às mãos, deitei a beata onde era devido e o meu pescoço virou-se num trejeito involuntário em direcção a um corpo humano, especado no canto do meu olhar. Os lábios negros mexiam-se devagar e, parecia-me, as palavras deveriam sair com clareza, embora não as ouvisse. Tirei os phones e pedi-lhe que repetisse.
- Estás sozinho? – perguntou. Tinha uma voz melíflua e olhava-me com grandes olhos castanhos, um tanto submissos, que me estudavam com discrição inquisitiva. Respondi-lhe que sim, que estava sozinho, parecia-me óbvio (até o ver, na estação era só eu e as moscas). Tentando perceber até onde iria levar esta troca de palavras, que esperava breve, deixei correr o marfim.
- Queres ir até ali?...
Olhei-o de perto e mirei-o de longe, com dois metros de distância, como diz o outro, que quem vê caras não vê covids e muito menos intenções. Tinha aquela pulga atrás da orelha, aquela que me diz que estou prestes a passar por um episódio tão inédito quanto absurdo mas, como passo a vida a queixar-me de algum ennui face à vida, à rotina, aos dias que se arrastam sem que se dê pela sua passagem, habituei-me a dar as boas vindas ao absurdo, aprendi a dar-lhe valor, sem ligar à cor, forma, cheiro ou entoação que possa assumir. Um negro, mais baixo do que eu, com ar apresentável e um ainda maior ar de caso acabara de me convidar para «ir até ali», fosse o ali onde fosse.
Com olhos penetrantes, ele esperava uma resposta. Descontraído, disse-lhe que tinha pressa, o meu comboio chegava daí a nada. Não satisfeito, insistiu, sempre delicado, mas firme na sua convicção: «vem até ali comigo». O tipo intrigava-me, mas para mistérios de manhãs ressacadas tenho Os Cinco, o estranho caso do Novo Banco e outras merdas que tais. Despedi-me, educado, e, quando me preparava para rodar nos calcanhares, disparou a pergunta como quem está habituado a premir o gatilho:
- Deixas-me fazer-te um broche?
Há características da minha personalidade de que me orgulho e que muito prezo. Uma delas é a capacidade, que tenho tido bastantes oportunidades de aperfeiçoar, de me distanciar do absurdo no momento em que ele me sucede e de o encarar como se fosse um mero espectador. Numa centésima de milionésimo de segundo, o meu cérebro recapitulou: Ok, estás numa estação de comboios, são umas onze horas, confinamento e tal e um marmanjola qualquer acabou de te perguntar se o deixas fazer-te um broche. Se deixo...? Sujeito educado, sem dúvida. A mãe ensinou-lhe bons modos. Fosse como fosse, tentei focar-me no inaudito da situação. O sujeito estava na estação a distribuir broches como se fossem chupas. Parecia que estes filmes só me aconteciam a mim. Que poderia responder? O tipo continuava expectante.
- Epá, não posso, faltam cinco minutos para o comboio e tenho mesmo de apanhar este – foi a resposta que se me escapou por entre os lábios. Sem me engasgar ou falhar a voz, como se nada fosse, falava-lhe com a naturalidade de quem recusa um convite para tomar café. Não se dando por vencido, insistiu que ainda dava tempo. Face a um argumento tão pertinente, tive de lhe dizer:
- Cinco minutos não é lá muito tempo para um broche. Tenho mesmo de ir neste comboio, depois só há outro às cinco da tarde, fica para uma próxima, ok? Tchau.
Virei costas e raspei-me.
O gajo estava, sem dúvida, de atalaia ao caixote do lixo e, pensei eu, talvez tivesse mais sorte com o próximo viajante solitário que se lembrasse de deitar ali o cigarro. Enquanto as escadas rolantes me conduziam à plataforma, reflectia no caso. Porque diabo nunca me tinha aparecido uma loiraça espampanante, de mini-saia e mamas grandes, pronta a fazer-me um broche? Não quer dizer que aceitasse, não, não, sou muito desconfiado em relação a estranhos que me propõem mamadas no meio de uma estação de comboios em plena cidade, em pleno covid, sejam pretos, loiras, chineses ruivos, indianos albinos, cães falantes, palhaços em monociclos ou pára-quedistas vestidos de mergulhador.
Divertido, sentado no comboio, também este vazio, tive motivo para me rir sozinho a viagem toda e, apesar de tudo, torci para que o tipo não acabasse a manhã com um olho negro ou coisa pior. Se as vítimas da sua atenção fossem como eu, até acabariam por se divertir com o inédito da situação. Caros leitores e leitoras, escutem-me: não é assim que se propõe um broche, assim, a sangue frio e para mais em tempos de pandemia. Apresentem à pessoa objecto do vosso desejo um teste recente negativo, digam que usarão luvas, que não haverá beijos na boca, nestes tempos voláteis, todas as precauções são poucas. No entanto, se forem mais impetuosos/as, não peçam autorização, agachem de imediato e façam um ataque cirúrgico à braguilha. Deixo isso ao vosso critério, Mas, por favor, rogo-vos, não se ponham a propor broches assim à entrada da estação dos comboios, ao pé do caixote do lixo. Isso é que não! É mais do que provável que não tenham sorte, porque assim não criam clima, não há espaço para a sedução, não há romantismo, que tão necessário este é, sobretudo em tempos de covid!
Com a devida vénia ao Mad John.

Obrigado, meu caro! Actualizaste-o ou dataste-o. O futuro o dirá... ;)
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