Nada entendo de economia, li Keynes muito por alto, de Ricardo sei o nome, de Adam Smith retive o tom ingénuo, a sua «noção benigna» da mão invisível e, ao contrário de Vítor Gaspar, não li o Das Kapital aos 17 anos (foi só aos 21 que me abalancei a tão vasta obra, sendo que, ao contrário do traidor que foi depois para o FMI receber as suas 30 moedas apenas li alguns capítulos, nomeadamente os que se referiam à criação de mais-valia).
Todavia, há um «paradigma» que me parece afirmar-se como tendência económica de contornos cada vez mais precisos, na Europa, de há uns anos a esta parte. Essa tendência é a de o trabalho valer cada vez menos e o capital valer cada vez mais.
Para a Europa, é todo o avanço do trabalho desde o final da II Guerra Mundial que está em causa. No espaço de poucos anos, o trabalho passou a ser tido como algo a taxar em progressão geométrica e a retribuir cada vez menos, em simultâneo aumentando-se o tempo obrigatório da sua duração e assim cumprindo o axioma económico segundo o qual se deve «trabalhar mais ganhando menos».
Por outro lado, o capital tem actualmente como função primordial ser «resgatado» pelo trabalho (são os bailouts), em simultâneo sendo poupado a taxações que colocariam em risco o seu «fluxo», algo de «perigosíssimo». Ou seja, assistimos a uma inversão vincada de tendência nas relações de força entre o capital e o trabalho, em prejuízo deste último. Contudo, esta inversão não é nova e pode até ser tida como representativa de um fenómeno perfeitamente racional, pelo menos se assumirmos que o motor real da economia não é o trabalho mas sim o capital, entendido aqui como o lucro e a manutenção e multiplicação do mesmo, o lucro que permitirá «investir» e, assim sendo, «gerar» trabalho, consequentemente «equilibrando» a relação de forças entre o trabalho e o capital.
O problema é que o capital, sendo por defeito uma noção mais abstracta do que a de trabalho, entrou no séc. XXI, paradoxalmente, com menor regulação do que o trabalho, o que levou a que tivesse entrado numa espiral de lucro insustentável (não acompanhando o valor acrescido «real» que era produzido pelo trabalho), o que acabaria por ter como desfecho lógico a grande debacle dos capitais de Outubro de 2008. Desde então, a passo estugado, o capital pensou apenas em proteger-se, num primeiro momento coagindo o trabalho a «resgatá-lo» e – claro - movendo-lhe desde então uma guerra não declarada, com o intuito de diminuir, precisamente, a porção de «capital» que com o «trabalho» tem de «despender».
O problema é que o capital, sendo por defeito uma noção mais abstracta do que a de trabalho, entrou no séc. XXI, paradoxalmente, com menor regulação do que o trabalho, o que levou a que tivesse entrado numa espiral de lucro insustentável (não acompanhando o valor acrescido «real» que era produzido pelo trabalho), o que acabaria por ter como desfecho lógico a grande debacle dos capitais de Outubro de 2008. Desde então, a passo estugado, o capital pensou apenas em proteger-se, num primeiro momento coagindo o trabalho a «resgatá-lo» e – claro - movendo-lhe desde então uma guerra não declarada, com o intuito de diminuir, precisamente, a porção de «capital» que com o «trabalho» tem de «despender».
As consequências deste desequilíbrio estão a e vão causar uma crise singular por toda a Europa, uma crise que não é nem será só económica mas também de valores. Uma crise perigosa. Porventura, poder-se-á até alegar que corresponde a um ajustamento mundial do capitalismo em si, o qual tenderá para modelos mais «liberais», como o chinês ou o indiano. Seja como for, se esta tendência não augura nada de bom para o trabalho, ou melhor para quem trabalha, também não será muito auspiciosa para o capital, apesar de este, no curto ou médio prazo, possuir ferramentas mais adequadas à sobrevivência num modelo de capitalismo «selvagem» (por oposição ao de capitalismo «social» que o precede na Europa), do que o trabalho.
* Revisão de um apontamento que escrevi em 2010.

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