Thursday, May 28, 2020

O homem vestido de preto


Numa noite amena de Janeiro de 2020, franqueou a porta principal do restaurante Adega dos Passarinhos, sito à rua Luís de Sá Pessoa, n.º 17, R/C, Alta de Lisboa, aliás, um dos meus poisos habituais ainda e sempre que me desloco à capital, um homem vestido de preto, um homem que trazia arrastada atrás de si uma sombra misteriosa, inteiramente cerzida de desolação e negrume.
Era um homem de gestos bruscos embora firmes, cabelos negros se bem que esbranquiçados e via com uns olhos frios, que nem por isso deixavam de ser brilhantes, de cor indextinta.
Paradoxalmente, era um homem frio mas ofuscante; um homem totalmente desconhecido de todos os outros comensais, um homem com rugas vincadas na testa e as unhas sujas que nem sachos, numas mãos que, a um observador atento, se adivinhavam calejadas por décadas e décadas de labutas dolorosas nos cantos mais ínvios da existência planetária, um homem que procurava vingança; um homem com umas mãos que, para os poucos de nós que o conhecíamos e o fitávamos de revés – como quem tem vergonha dos seus próprios dedos, ou pavor de que os outros vissem a nu a crueldade que os dedos de todos emanava - mais pareciam garras descanardas do que mãos de gente. 
Eu, cliente da casa fazia uns dez anos e à semelhança dos mais antigos criados de mesa do estabelecimento, (trata‐se de uma tasca que data de 1874 e que albergou em outros tempos memoráveis tertúlias do grupo dos Vencidos da Vida) entre os quais se contavam o sempre afável senhor António Gil, o insofismável apesar da careca senhor Paulo Gomes e o nunca por demais incontornável senhor Teixeira, reconhecê‐mo‐lo de imediato. Nenhum, de nós, no entanto, deu mostras de se lembrar do homem vestido de preto que daquela maneira invadira, bruscamente, abruptamente (porque não dizê‐lo), uma noite que até essa altura se anunciara perfeitamente legislada na graça de São Turismo e do bendito clima temperado, uma noite tranquila na benesse dos cinco maravedis que acabavam de me pagar. 
Enfim, uma noite de Domingo, morna e aprazível, como eram e sempre foram que eu me recorde todas as noites de Domingo no mês de Janeiro (Interrompo esta narrativa para vos clarificar alguns pontos que, sendo do meu interesse, também poderão um dia vir a ser do vosso: necessário se torna dizer‐vos que o homem vestido de preto era persona non grata da casa, muito embora, pela parte que me toca, e estou cem por cento seguro, pela parte que toca desde os empregados, passando pelas sopeiras da cozinha até à gerência, ninguém dos que ali o conheciam tivesse dele razão de queixa, bem pelo contrário, havíamos sido poupados). Sempre, comentava-se, vinha no mês de Janeiro, pagava as suas contas e resolvia discretamente os seus assuntos particulares, com o superavit de generosas gorjetas e jamais perdera a compostura, apesar de ser seu hábito levar muitos em demasia. 
Por isso, era persona non grata, vá‐se lá saber o motivo real, e essa certeza bastava para que fingíssemos ignorá‐lo, desdenhosamente. Para além do mais, fizera pelo menos seis anos que ninguém lhe pusera a vista em cima; tinha‐se, uma bela noite de Agosto, assim como chegara, pura e simplesmente volatilizado). 
Então, o homem com a gabardina negra de couro e as calças pretas de flanela, centrou‐se no lobby de entrada da Adega dos Passarinhos, as pernas afastadas e os pés bem fincados no chão, como um tipo que nada tem a perder armado em duro, como um tipo que desafia o Mundo inteiro sem a ousadia ou o descaramento de o dizer claramente, e aguardou, impávido, soberano, que alguém dele se ocupasse. Escusado será dizer que todos permanecemos tensos, imobilizados.
Coube ao bom do velho Teixeira fazer‐lhe as honras da casa; num aceno que guardava para os melhores clientes, inquiriu ao homem vestido de preto se desejava jantar ou se vinha por outro motivo. 
O homem vestido de preto, reparando melancólico que uma mosca acabara de falecer, como que por acaso electrocutada no moderníssimo aparelhómetro anti‐insectos que o dono da Adega mandara instalar, acenou afirmativamente e, sem dizer palavra, despiu a gabardina, confiou‐a ao pressuroso do Teixeira e foi sentar‐se na mesa do canto, a única mesa do canto de onde se podia ver tudo e onde quase ninguém se sentava. Estranhei eu por nunca me ter lembrado disso. Ao contrário da primeira vez em que o vira, quando comera em molho de escabeche, o homem vestido de preto pediu desta feita uma dose de entremeada de porco e um jarro de vinho tinto das américas. 
Vai não vai, encontrando‐se este vosso criado naquele êxtase confiante que medeia entre o segundo copo de três de tinto e os restantes, fitei‐o de modo descarado, longamente, mas o homem vestido de preto não se desconcertou. 
Pareceu‐me que tinha mais cabelos brancos do que da última vez e que os seus olhos eram ainda mais brilhantes, ainda mais alucinados, se é que possível descrever tamanha alucinação como a que lhe vi luzir nessa ‐ felizmente ‐ já distante noite, subitamente tornada gélida, em Março de 2020. 
Recordo‐me ainda de que no aparelho de imagens o Bergamo dava uma tareia ao Valência mas que, na segunda mão, em Valência, correu mal. Foi a a vinte minutos do fim, parecia a eliminatoria decidida, mal sabíamos o quanto aquele jogo seria mortal, quando o Jorge, por demais conhecido como o bêbado do bairro, me chamou discretamente à atenção: Lúcio, topa ali (coisa no Júlio extremamente rara), para a mesa do canto onde se encontrava o homem vestido de preto. 
Até hoje, estou convencido de que se não fosse esse reparo tímido do bêbado do Jorge nunca mais me teria lembrado do homem vestido de preto, do homem de olhos brilhantes vestido de preto que sozinho não via ninguém e ao mesmo tempo parecia vislumbrar o Universo inteiro. Foi quando o Jorge me desviou a atenção do jogo no qual o meu futebol tantas desgraças ronaldava, que me apeteceu dar ao homem vestido de preto um bom par de estaladas. 
Porém, não o fiz. Li nos seus olhos algo de indizível, perturbador, angustiante, algo de que até hoje não me esqueci e estou em crer que é esse o motivo pelo qual senti a necessidade de confiar ao vácuo este prosaico episódio. Incomodado, virei‐lhe as costas, na minha vã determinação de desfrutar de uma noite de domingo normal, apreciando apenas os dribles de Sousa para Zé Miguel, os cortes de carrinho de Frasco, bem como as sempre incompreendidas acções dos bandeirinhas, que todos nós, os da Adega dos Passarinhos logo comentávamos, acalorados, imbuídos de uma estranha fraternidade, a qual, como é óbvio, logo e ainda hoje se esfumava mal o apito final do árbitro se fazia ouvir. 
Em vão tentei ignorá‐lo, dizia‐vos, mas pareceu‐me impossível regressar ao meu tão singelo e contudo tão elaborado prazer dos domingos à noite na Adega dos Passarinhos. No momento preciso em que os meus olhos de novo recaíram sobre ele, quase que tinha terminado o seu repasto. Apanhei‐o no preciso momento em que o senhor Teixeira, sem qualquer desdém e até num modo que me pareceu a mim respeitoso em demasiada, com uma clarividência que me pareceu por demais estranha, lhe perguntava, atencioso: “O senhor vai desejar mais alguma coisa?..” 
O restaurante inteiro pareceu‐me parar no tempo, suspenso da resposta do homem vestido de preto. Pareceu‐me até que os que o não conheciam sentiam no ar que algo de grave estava prestes a suceder, embora ninguém pudesse, em abono da verdade, prever exactamente o quê ou quem ou o como. 
Por graça ou acaso do destino, na televisão uma lesão interrompera o jogo e o silêncio do ruído ecoava ensurdecedor a partir do estádio agora mudo até vir embater de chofre nas paredes engorduradas da sala de refeições, num estribilho que me lembrou uma canção diabólica. 
Então, o homem vestido de preto replicou, naquela voz grave e seca que todos sem excepção reconhecemos com temor, naquela voz desprovida de qualquer sentimento, naquela voz que era como se fosse a de um homem morto e vivo apenas por segunda ou terceira ou sexta prestação interposta, num sorriso cúmplice, que só o bom do Teixeira pareceu compreender: «Hoje, Senhor Teixeira, apenas desejo estar e prestar atenção aos vossos jogos. Estou de folga, como de costume, sempre que vos venho visitar.» 

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