Em primeiro lugar, vou já dizendo que não gosto de trabalhar. Que trabalhar é uma merda. Uma obrigação e que a maior parte de nós trabalha por dois ou três motivos. A saber, ou porque se não trabalharmos não temos hipótese de nos sustentarmos, ou porque não sabemos como ocupar o tempo que ficaria livre se não fosse o caso de trabalharmos, ou porque o trabalho permite (para meia dúzia) acumular riqueza e riqueza é igual a ter poder, a poder dar ordens e a mandar nos outros, a forçá-los a cumprir os nossos desejos. Tenho pena daqueles que trabalham pelo primeiro motivo, desdém pelos que trabalham pelo segundo e um profundo desprezo pelos que trabalham pelo terceiro.
É necessário trabalhar? Não, não é. Com os avanços da robótica e das inteligências artificiais, poucos de nós teriam de facto necessidade de trabalhar. Mas vendem-nos a ideia de que o trabalho é uma parte fundamental da vida. Nada de mais falso. Vendem-nos essa ideia para nos manterem na linha, para nos controlarem, são os tais que trabalham para acumular riqueza, não a redistribuírem e porem cangas nos outros, tais como a premissa de que o ócio é inimigo da virtude. Eis uma falácia muito útil, quando a verdade é diferente: é o ócio que permite que pensemos, é o ócio que faz com que nos apercebamos do quâo somos explorados, enganados, roubados.
Mas não, o que nos vendem é que trabalhar dá saúde e faz crescer e que, como recompensa, tomem lá umas semanitas de férias por ano em sítios de merda, a apanhar aviões de merda, todos diferentes mas todos iguais, todos iguazinhos, todos com o mesmo telefone estúpido, todos formatados no mesmo paradigma de lixo-luxo, o de que trabalhar é muito bom e que, se trabalharmos muito e formos muito dedicados, até teremos direito a time-sharing em cancun, ibiza ou noutro sítio de merda qualquer.
Claro está, a história da humanidade é feita de trabalho (quem fez as pirâmides, quem fez o empire state building, quem fez a hoover dam, quem fez as bombas atómicas e tal e quem com esses trabalhos alegre ou tristemente se escravizou).
A questão é que o trabalho é diferenciado, uns fazem o trabalho de merda, outros controlam os que fazem o trabalho de merda e outros ainda dão as linhas gerais (são os empreendedores) e, como dão as "linhas gerais", ficam com todos os frutos, deixam umas migalhas escorrer pela cadeia de trabalho, palavra muito elucidativa, e gozam à fartazana. A história do trabalho é a história do roubo. Fomos tão bem ou tal mal-sucedidos nessa história, a qual tem um nome, chama-se capitalismo, que, muito em breve a nossa casa, o planeta, nos vai mandar à merda sem apelo nem agravo (just wait and see).
Já eu, portanto, odeio trabalhar e só o faço porque me enquadro na categoria dos que trabalham pelo primeiro motivo que enunciei; trabalho porque, se não o fizer, boca, não tenho para comer, nem para comprar ao preço da uva mijona as roupas e a comida que os outros que ainda estão abaixo de mim produzem no bangladesh e afins. Não, eu gosto é de estudar e sei de ginjeira que, no mundo em que vivemos, fosse a riqueza distribuída de forma sã, poucos de nós teriam de trabalhar, a não ser trabalhar naquilo que de facto nos desse gozo. Por exemplo, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a terra, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a engenharia das coisas, gozo para o tipo que gosta, de facto, de tornar a vida dos outros menos desgastante, menos bangladeshiana. Mas tal não pode acontecer porque a acontecer a tal da cadeia do trabalho sofreria danos irreparáveis, nomeadamente para os que trabalham pelo gozo de impor aos outros a sua visão do mundo, o seu quero posso e mando, replicado pelos seus capatazes, os seus minions, até aos que, na verdade, fazem o trabalho duro e que, como é este o modelo, o que ambicionam, coitados, é querer, poder e mandar.
Ora, já eu, eu gosto de ler, gosto de compor música, gosto de estudar, gosto de pintar, de fotografar, gosto de escrever, gosto de fazer uma data de coisas, que não são “produtivas” e, ó pasmo, até gosto de viver: de comer, de ter tempo para descansar, de ter tempo para fazer amor. O meu problema é que, dizem-me, os de cima, que isso não é trabalho, que isso são “frescuras”, que isso são passatempos de gente preguiçosa, que o que eu mereço é cacete, é cangas atrás de cangas, miséria e tal, tudo embrulhado no axioma geral do “vai mas é trabalhar, ó seu malandro!”. Pois bem, aqui chegado, gostaria de deixar um desafio aos três ou quatro estaloras que acabarão por ler este apontamentozeco. Se isto que eu escrevinhei numa horita e meia, após semanas, para não dizer anos de estudo não é trabalho, é o quê? Hum? Fico à aguardar os vossos prestimosos contributos.
Já eu, portanto, odeio trabalhar e só o faço porque me enquadro na categoria dos que trabalham pelo primeiro motivo que enunciei; trabalho porque, se não o fizer, boca, não tenho para comer, nem para comprar ao preço da uva mijona as roupas e a comida que os outros que ainda estão abaixo de mim produzem no bangladesh e afins. Não, eu gosto é de estudar e sei de ginjeira que, no mundo em que vivemos, fosse a riqueza distribuída de forma sã, poucos de nós teriam de trabalhar, a não ser trabalhar naquilo que de facto nos desse gozo. Por exemplo, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a terra, gozo para o tipo que gosta de facto de trabalhar a engenharia das coisas, gozo para o tipo que gosta, de facto, de tornar a vida dos outros menos desgastante, menos bangladeshiana. Mas tal não pode acontecer porque a acontecer a tal da cadeia do trabalho sofreria danos irreparáveis, nomeadamente para os que trabalham pelo gozo de impor aos outros a sua visão do mundo, o seu quero posso e mando, replicado pelos seus capatazes, os seus minions, até aos que, na verdade, fazem o trabalho duro e que, como é este o modelo, o que ambicionam, coitados, é querer, poder e mandar.
Ora, já eu, eu gosto de ler, gosto de compor música, gosto de estudar, gosto de pintar, de fotografar, gosto de escrever, gosto de fazer uma data de coisas, que não são “produtivas” e, ó pasmo, até gosto de viver: de comer, de ter tempo para descansar, de ter tempo para fazer amor. O meu problema é que, dizem-me, os de cima, que isso não é trabalho, que isso são “frescuras”, que isso são passatempos de gente preguiçosa, que o que eu mereço é cacete, é cangas atrás de cangas, miséria e tal, tudo embrulhado no axioma geral do “vai mas é trabalhar, ó seu malandro!”. Pois bem, aqui chegado, gostaria de deixar um desafio aos três ou quatro estaloras que acabarão por ler este apontamentozeco. Se isto que eu escrevinhei numa horita e meia, após semanas, para não dizer anos de estudo não é trabalho, é o quê? Hum? Fico à aguardar os vossos prestimosos contributos.

Há que considerar o chamado lazer remunerado, eu por exemplo não em importaria de ter um pequeno picadeiro e tal, dar umas aulas de equitação, sei lá, algo prazeiroso e com alguns lucros.
ReplyDeleteOra nem mais. Se és bom a fazer isso e se gostas, deveria ser possível. Mas não, terias que te endividar até ao tutano. Num aparte, os ministros do Trabalho de Portugal, Espanha e Itália avançaram hoje com uma proposta para um Rendimento Mínimo Europeu; quanto vale a aposta que os países do norte não vão deixar passar essa medida?
DeletePrimeiro seria preciso termos uma noção de trabalho - por envolver o gasto de energia e aplicação de conhecimentos, como saber escrever, o texto e este comentário seriam trabalho - ou por ser difícil, este comentário já não o seria, ou por ser remunerado, este comentário e imagino que o post também já não o seriam. Talvez seja a remuneração/contrapartida que o define e então alguns de nós teremos a sorte de gostar, nem que seja só em parte, do nosso trabalho
ReplyDeleteOlá Redonda,
ReplyDeleteObrigado pelo trabalho a que deu ao escrever o seu comentário. :-)
Parece-me que, pelo menos em parte, a sua apreciação é correta: trabalho é aquele que é remunerado, o que recebe contrapartidas em relação ao esforço que implica. Tomemos por exemplo a pessoa que planta maçãs e que as planta não só para si como para outros. Naturalmente, deve ser remunerada quando vende as maçãs a outras pessoas. Da mesma forma, a pessoa que teve o trabalho de ir comprar adubos para vender à pessoa que planta as maçãs, também trabalhou e também deve ser remunerada. No entanto o que me parece é que existem disparidades gigantescas nas remunerações auferidas entre alguns tipos de trabalho e outros. Por exemplo, o gestor de hedge funds aufere numa manhã mais rendimento do que o agricultor num ano; um jogador de futebol como Cristiano Ronaldo mais num segundo do que todos os jogadores de futebol das segundas ligas, o grande empresário 100 vezes o que aufere cada um dos seus operários. Ora, já para não falar do trabalho intelectual (que quase nunca é remunerado a não ser que veicule as ideias dos donos do trabalho), porque motivo há uma disparidade tão abissal no rendimento do trabalho? Eis a questão.
Completamente de acordo e questão traduzirá a injustiça social, o falhanço, nesta perspectiva dos sistemas políticos e a nossa imperfeição/incapacidade, ou de grande parte de nós, para criarmos um sistema mais justo.
ReplyDelete