Monday, May 18, 2020

Porto de aventuras


(...) Estava no primeiro ano da faculdade, 18 anos mal feitos, quando ouvi pela primeira vez alguém a chamar-me «morcão»; foi uma velha gorda, feia, que cheirava mal e sinceramente não percebi a sua interjeição. Havia sido transplantado de Coimbra para o Porto dias antes e «morcão» não era palavra, nesses tempos ingénuos, que fizesse parte do meu léxico. À época, fora viver para São Pedro de Campanhã, Azevedo, ali ao lado do palácio da circunvalação e sonhava ser jornalista, conquanto pouco ou nada soubesse da vida, das armadilhas do jornalismo e de quão cruéis poderiam a vida e certos «jornalistas» serem. 
Recordo-me de que costumava apanhar o eléctrico no Infante, o 1 (que ainda hoje subsiste, apesar de se ter transformado numa linha turística praticamente interdita aos locais) e seguir, daí, sempre pelo contorno da margem do rio, por volta das oito, nove da manhã (chegava sempre atrasado à primeira aula), até ao Castelo do Queijo, bem perto do sítio onde aprendi a pescar, muito antes, ainda menino, saía a tainha, a enguia e o robalo, pela mão da cana de pesca experiente do meu avô. 
Fazendo flashforward, na altura do 1, que ia do Infante ao Castelo do Queijo, não havia Ipods, Internet, de redes sociais nem falar e de telemóveis era assim uma coisa de que nem sonhávamos. Namorava ao único telefone de casa, eu e ela tínhamos um código, às oito da noite ela ligava e eu ia a correr para a única extensão; é para mim, é para mim! com a minha avó e o meu avô a trocarem olhares cúmplices da salita das refeições, à escuta do que eu ia dizendo no átrio da entrada. E eu, para além do namorico, nos dias em que não acordava a tempo de ir para a fac de eléctrico, apanhava o autocarro 3 dos STCP, o qual, depois de fazer uma curva imensa negociando o inferno da Rua do Freixo, me depositava em São Lázaro, à boca da Biblioteca Municipal, onde invariavelmente mandava às malvas a primeira e até a segunda aula, deliciando-me ao invés com as fichas de leitura e os arquivos da biblioteca, a recordarem-me o que seria a PVDE dos tempos igrejos do meu avô, resistente antifascista que chegara a albergar nos tempos do botas o Cunhal, na nossa casa de família. 
Tudo isso era para mim, jovem e inocente, um autêntico manjar. Ao sair da biblioteca, depois de deitar os olhos por Camus, Pessoa, Mário de Sá Carneiro, passava pelo Cinema Águia, ao fundo da ladeira, ao desembocarmos na Praça da Batalha, sorria aos cartazes revisteiros do Teatro São João, admirava o Último Tango em Paris no cinema Passos Manuel, descia a rua larga de Santa Catarina, com a sede do jornal onde viria a fazer a tarimba, numa transversal, já então decadente, e descia, a passo estugado, rumo à jugular da cidade, a Avenida dos Aliados. Aí, encontrava o Imperial com os seus magníficos vitrais, o Embaixador com o seu cheiro a espaço livre e corria, sempre atrasado, rua abaixo até ao planalto da estação das máquinas de ferro de São Bento (outro espanto de beleza), assumindo, apesar das pressas da juventude, uma postura reverente ou, tal como afirmavam os meus amigos reaccionários de então, «lá vai o Lúcio descendo pela rua de Santo António até ao Bairro da Sé velha da graça, passando fulminante pela rua do nosso senhor Mouzinho da Silveira, herói da campanha ultramarina, que para sempre o há-de curar das suas tendências anarquistas». 
Suponho, actualmente, que seriam outros tempos, outras formas de ver o mundo, o qual era, também ele, outro que já não é o de hoje, porque não poderia ser. Era um mundo mais ingénuo e era um mundo muito mais lento e um mundo que permitia amar e pensar de forma diferente do que a de hoje. Repetindo-me, não havia Ipods, os telefones fixos eram raros, computadores ainda havia menos, disso tenho a certeza, e o que havia, talvez em virtude de existir com mais permanência, com mais tempo para ser visto, com mais luz, com mais cores, talvez não fosse mais feliz mas - garantidamente - era mais genuíno. (...)

A fotografia foi tirada pelo meu avô materno, Fernando Gaspar, cerca de 1950.

2 comments:

  1. Gostei muito deste texto e da fotografia (desde os doze anos que moro no Porto)

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  2. Obrigado. Tenho uma relação muito complexa com a cidade do Porto. Fui aí muito feliz mas também profundamente o contrário. Estive no Porto em Dezembro do ano passado depois de uma ausência de uns
    bons 15 anos e o que me pareceu é que a cidade estava muito atulhada, muitos carros, muito turbilhão e, como em Lisboa, a minha base actual, com o centro histórico muito "poluído" por turistas. Mas, claro, continua a ser uma bela cidade. E as pessoas têm, ahem, outra "cor". ;)

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