À medida que o tempo vai
passando, nesta primavera alucinante, tenho estado muito tempo fechado em mim
mesmo e isso tem-me dado para pensar. Algo sobre o qual reflito é na pausa
extremamente benéfica que a crise atual trouxe ao nosso planeta. Os níveis de
poluição atmosférica desceram de forma brutal, animais que tínhamos banido e
que em muitos casos estavam já em vias de extinção, regressam, agora que o ser
humano se fechou em casa. Inegavelmente, isto é muito bom e o planeta agradece.
No entanto, o que me
preocupa é o day after, é quando regressarmos à nossa balbúrdia ecológica, com
milhares de aviões nos céus, milhões de automóveis em terra e não sei quantos
navios (alguns deles como os de cruzeiro altamente poluentes) a cruzarem os
oceanos. Parece-me quase óbvio que a nossa presente organização mundial a nível
global – o capitalismo desenfreado e muitas vezes selvagem, como nos EUA e com
os belíssimos resultados que agora apresenta, não é viável e que, a manter-se,
haverá mais e mais corana vírus, mais e mais destruição do que aquela que no
espaço infinitesimal de um século temos infligido à Terra. Não podemos
continuar a tratar o planeta como uma fonte inesgotável de recursos para o
“crescimento” económico. O maldito crescimento económico da sociedade de
consumo em que os produtos já vêm das fábricas preparados para deixarem de
funcionar num curto espaço de tempo, de modo a manter o “crescimento”. Uma
sociedade em que “ter” é a igual a “ser”.
Não podemos continuar a desejar
desenfreadamente a roupa mais da moda, o carro mais caro, o barco mais rápido,
a viagem de avião para aqui e para acolá, etc, etc. E, acima de tudo, não podemos
continuar num sistema socioeconómico em que vigora a lei do cada um por si e
deus por todos. De igual modo, a riqueza não pode continuar concentrada em meia
dúzia de indivíduos, quando a larga maioria vive de migalhas e uma outra enorme
percentagem nem tem para comer. Entendamo-nos, não é o corona que é o vírus, o
vírus é a (des)organização social e económica que endeusamos, é este
capitalismo onde tudo é liberdade (dizem), mas onde não há nem traço de
igualdade.
A questão, também aqui é simples: de que servem liberdades formais se não há liberdade para comer, ou para ter habitação, ou ensino, ou saúde? Não serve para nada, porque sem igualdade não há liberdade. Assim sendo, é necessário começar a ponderar formas de taxação severa das grandes fortunas. É necessário colocar travões rigorosos à especulação financeira (será admissível que um idiota engravatado faça balúrdios com hedge funds, futures e afins, em cima da miséria de milhões, como em 2008?). Assim sendo, é necessário acabar com o cancro das offshores (só por isso a Holanda deveria ser expulsa da UE). É necessário exigir serviços públicos de qualidade (e não atirar para o ar que isso são “gorduras do Estado", boas para privatizar pelos amigos). Por fim mas não menos decisivo, é necessária uma política ambiental extremamente severa, uma política ambiental que promova energias “limpas”, minimize as emissões de CO2 e que impeça a destruição da Amazónia, dos lagos, dos rios e dos mares. Se tal não for feito, lamento mas estou em crer que o nosso futuro e o dos nossos filhos será curto, mais curto do que se julga. A questão é simples: não é o corona que é o vírus, ele representa apenas (mais) um sintoma. O vírus somos nós.
A questão, também aqui é simples: de que servem liberdades formais se não há liberdade para comer, ou para ter habitação, ou ensino, ou saúde? Não serve para nada, porque sem igualdade não há liberdade. Assim sendo, é necessário começar a ponderar formas de taxação severa das grandes fortunas. É necessário colocar travões rigorosos à especulação financeira (será admissível que um idiota engravatado faça balúrdios com hedge funds, futures e afins, em cima da miséria de milhões, como em 2008?). Assim sendo, é necessário acabar com o cancro das offshores (só por isso a Holanda deveria ser expulsa da UE). É necessário exigir serviços públicos de qualidade (e não atirar para o ar que isso são “gorduras do Estado", boas para privatizar pelos amigos). Por fim mas não menos decisivo, é necessária uma política ambiental extremamente severa, uma política ambiental que promova energias “limpas”, minimize as emissões de CO2 e que impeça a destruição da Amazónia, dos lagos, dos rios e dos mares. Se tal não for feito, lamento mas estou em crer que o nosso futuro e o dos nossos filhos será curto, mais curto do que se julga. A questão é simples: não é o corona que é o vírus, ele representa apenas (mais) um sintoma. O vírus somos nós.

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