Sonhei que tinha acordado
num país em que tudo estava parado, não só o metro ou a carris, os transportes
do Porto ou a travessia noturna do Sado ou sequer os estaleiros diurnos da
Viana do Castelo infeliz. Sonhei que tinha acordado dum sonho de quarenta anos
e que todas as pessoas tinham decidido parar de se lembrarem de serem pessoas,
todas menos as crianças. Sonhei que as crianças saíam, que brincavam
livremente, que tudo o resto estava parado, até os automóveis nas estradas, os
aviões no ar e os navios no mar, os comboios nos carris, os metros nos túneis.
Sonhei que não se via vivalma nas ruas do meu país que não fossem meninos e
meninas, não é que os adultos tivessem desaparecido, apenas não se viam, uns
dormiam, outros faziam a lida da casa, outros discutiam em silêncio, uns
quantos faziam amor com as luzes apagadas, outros não faziam nada, mas nenhum
saíra à rua, estavam todos abrigados nos seus lares, entre paredes, nos seus
buracos, nos seus castelos e palácios, ou nos seus acidentados vãos de escada,
nas suas irrevogáveis camas de cartão. Sonhei o meu país adormecido - por fim -
o meu país sonhando-se de novo, pensando, esclarecido, o meu país despertando
de um logro, sonolento ainda, mas já desperto do pesadelo, o meu país piscando
os olhos, como quando a luz nos fere no inverno, sonhei melros chilreando nas
árvores e estores de persianas por descerrar. Sonhei que lá fora as crianças
corriam, que pulavam, brincavam, à solta, na rua, pela calçada, nos barrancos,
livres, em todos os lugares, pelos jardins, até mesmo pelas escarpas, em
baldios, aos escorregas, nas praias, de Valença ao Algarve, de Mendes Fernão a
Gonçalo da Maia, de Fernando Campos a Luíza Vaz; sonhei crianças que
descobriam, sonhei confiança, bravura – sonhei-a nos adultos, vi-os lavados de fresco, sonhei querer, vi
fé, quis ilusão, agarrei vontade, sonhei pouco medo e sonhei alguma saudade, sonhei
esperança, sonhei mar. Sonhei sim, sonhei mar, mar revolto de ondas, de
remoinhos, mar de arrasar marés altas, vivas e vazas, sonhei a nação, sonhei a igualdade, sonhei a liberdade, sonhei a fraternidade e sonhei a solidariedade. Então,
ao despertar do meu sonho, constatando que tudo não passara de isso mesmo, de um
sonho, que nada ou quase nada tinha mudado, que fora apenas um sonho, um sonho
estranho, como todos os outros, percebi também, como dizia o Gedeão, que, por
pouco que seja, “sempre que um homem sonha o mundo pula e avança”.

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