Sunday, April 26, 2020

Sonhar é avançar



Sonhei que tinha acordado num país em que tudo estava parado, não só o metro ou a carris, os transportes do Porto ou a travessia noturna do Sado ou sequer os estaleiros diurnos da Viana do Castelo infeliz. Sonhei que tinha acordado dum sonho de quarenta anos e que todas as pessoas tinham decidido parar de se lembrarem de serem pessoas, todas menos as crianças. Sonhei que as crianças saíam, que brincavam livremente, que tudo o resto estava parado, até os automóveis nas estradas, os aviões no ar e os navios no mar, os comboios nos carris, os metros nos túneis. Sonhei que não se via vivalma nas ruas do meu país que não fossem meninos e meninas, não é que os adultos tivessem desaparecido, apenas não se viam, uns dormiam, outros faziam a lida da casa, outros discutiam em silêncio, uns quantos faziam amor com as luzes apagadas, outros não faziam nada, mas nenhum saíra à rua, estavam todos abrigados nos seus lares, entre paredes, nos seus buracos, nos seus castelos e palácios, ou nos seus acidentados vãos de escada, nas suas irrevogáveis camas de cartão. Sonhei o meu país adormecido - por fim - o meu país sonhando-se de novo, pensando, esclarecido, o meu país despertando de um logro, sonolento ainda, mas já desperto do pesadelo, o meu país piscando os olhos, como quando a luz nos fere no inverno, sonhei melros chilreando nas árvores e estores de persianas por descerrar. Sonhei que lá fora as crianças corriam, que pulavam, brincavam, à solta, na rua, pela calçada, nos barrancos, livres, em todos os lugares, pelos jardins, até mesmo pelas escarpas, em baldios, aos escorregas, nas praias, de Valença ao Algarve, de Mendes Fernão a Gonçalo da Maia, de Fernando Campos a Luíza Vaz; sonhei crianças que descobriam, sonhei confiança, bravura – sonhei-a nos adultos, vi-os lavados de fresco, sonhei querer, vi fé, quis ilusão, agarrei vontade, sonhei pouco medo e sonhei alguma saudade, sonhei esperança, sonhei mar. Sonhei sim, sonhei mar, mar revolto de ondas, de remoinhos, mar de arrasar marés altas, vivas e vazas, sonhei a nação, sonhei a igualdade, sonhei a liberdade, sonhei a fraternidade e sonhei a solidariedade. Então, ao despertar do meu sonho, constatando que tudo não passara de isso mesmo, de um sonho, que nada ou quase nada tinha mudado, que fora apenas um sonho, um sonho estranho, como todos os outros, percebi também, como dizia o Gedeão, que, por pouco que seja, “sempre que um homem sonha o mundo pula e avança”.

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