Friday, April 24, 2020

Riscos e recompensas





Cometi uma infração ontem. Um mês e meio é muito tempo. Demasiado. De carro estávamos a 10 minutos um do outro. Os dois cansados deste confinamento que nos obrigava à prossecução de amores platónicos. Pronto, cometi a infração e mudei-me de armas e bagagens. Saí de um bairro lisboeta relativamente fácil de gerir e vim-me enfiar no inferno de Campo de Ourique. Só hoje de manhã, quando levei a nossa cadela a passear, me apercebi dos riscos que isto aqui apresenta. Dezenas de pessoas nas ruas, a maior parte sem máscaras, automóveis a rolar, pessoas a parar e a dirigir cumprimentos à Fox. Eu, de máscara, e ainda bem pois sorriso mais amarelo do que o meu não poderia ser. Melhor de máscara, assim ninguém viu. Gente aos magotes. No pingo doce, sem qualquer distância, para aí umas 30 pessoas à porta. No minipreço, idem. Passei para o meio da estrada, eu e a Fox, os carros lá tiveram que nos dar procedência. Fui à mercearia e ainda tive de driblar uma série de gente. A Fox deixei-a presa numa daquelas coisas vermelhas, uma boca de incêndio. Lá dentro, um inferno, corredores minúsculos e pelo menos cinco pessoas a deambular. Voltei para casa. Despi-me à porta. Fui lavar as mãos, lavei a máscara, voltei para trás e lavei os pés da Fox. A roupa foi toda para lavar. Agora estou aqui. Tive de preparar um whisky soda, bem sei que é cedo, mas estava com os nervos à flor da pele. Sensações contraditórias. Vim aqui porque não suportava mais estar longe da A e da Fox. Mas o que vim eu fazer, ao enfiar-me numa zona com esta densidade populacional? A escolha foi minha. Foi nossa. A única coisa a fazer é ser ainda mais draconiano nos protocolos de saída e de entrada. Vai correr bem. Estou com a A e estou com a Fox. Só pode correr bem. As fotos são da nossa varanda, felizmente temos este pátio interior que nos afasta de tudo. Um bom dia, um excelente fim de semana.

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