Cometi uma infração ontem. Um mês e meio é muito tempo. Demasiado. De carro
estávamos a 10 minutos um do outro. Os dois cansados deste confinamento que nos
obrigava à prossecução de amores platónicos. Pronto, cometi a infração e
mudei-me de armas e bagagens. Saí de um bairro lisboeta relativamente fácil de
gerir e vim-me enfiar no inferno de Campo de Ourique. Só hoje de manhã, quando
levei a nossa cadela a passear, me apercebi dos riscos que isto aqui apresenta.
Dezenas de pessoas nas ruas, a maior parte sem máscaras, automóveis a rolar,
pessoas a parar e a dirigir cumprimentos à Fox. Eu, de máscara, e ainda bem
pois sorriso mais amarelo do que o meu não poderia ser. Melhor de máscara,
assim ninguém viu. Gente aos magotes. No pingo doce, sem qualquer distância,
para aí umas 30 pessoas à porta. No minipreço, idem. Passei para o meio da
estrada, eu e a Fox, os carros lá tiveram que nos dar procedência. Fui à
mercearia e ainda tive de driblar uma série de gente. A Fox deixei-a presa numa
daquelas coisas vermelhas, uma boca de incêndio. Lá dentro, um inferno,
corredores minúsculos e pelo menos cinco pessoas a deambular. Voltei para casa.
Despi-me à porta. Fui lavar as mãos, lavei a máscara, voltei para trás e lavei
os pés da Fox. A roupa foi toda para lavar. Agora estou aqui. Tive de preparar
um whisky soda, bem sei que é cedo, mas estava com os nervos à flor da pele.
Sensações contraditórias. Vim aqui porque não suportava mais estar longe da A e
da Fox. Mas o que vim eu fazer, ao enfiar-me numa zona com esta densidade
populacional? A escolha foi minha. Foi nossa. A única coisa a fazer é ser ainda
mais draconiano nos protocolos de saída e de entrada. Vai correr bem. Estou com
a A e estou com a Fox. Só pode correr bem. As fotos são da nossa varanda,
felizmente temos este pátio interior que nos afasta de tudo. Um bom dia, um
excelente fim de semana.



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