Monday, April 20, 2020

Com o covid ao ralenti



(…) Deixei Chelas para trás, vi-me de regresso ao asfalto, meti a quarta, puxei por ela, como se fosse uma gaja, uma das difíceis, puxando-a todinha, e, só então, só então fiz saltar a quinta, tric, trac, a esgalhar o motor do R7 de fininho. Caramba, contado nem se acredita, quase nem sentia a estrada; nunca me passara pela cabeça que o R7, um carro com 20 anos, ainda pudesse chegar aos 180! Quase de imediato, ao tomar noção, levantei o pé, convinha não abusar, deixei-me ir, a 150, 160. A luz laranja que continuara acesa no indicador do combustível apagou-se, para logo começar a piscar, muito depressa, demasiado depressa. Desengatei e deixei-me ir, a deslizar, sem tracção, ainda a 170, aproveitando o asfalto uniforme do caminho e a última longa recta antes da próxima curva, confiante, sabendo que, em última análise, nunca mais passaria por aquela estrada sem um trejeito de emoção e que, se chegasse a velho, os meus netos por certo apreciariam quando à lareira lhes contasse o episódio. Ao fundo da recta embraiei a quarta, negoceie a curva a abrir em redução, passei por uma placa que indicava a aldeia da «Igreja Nova» e, bingo, lá estava ela, que Deus salvasse a rainha! Era a British Petroleum! Um pouco antes da rotunda, que dava acesso ao nó que me levaria a casa, avistara o placard luminoso, verde e amarelo, de uma BP, de uma BP 24 horas!
Ao ralenti, saí da minha faixa e enfiei na da estação de serviço, já o motor do R7 tossicava, soluçando, de forma alarmante; no sítio que me convinha, com um toque no travão, assertivo, imobilizei-o, rodei a chave e silenciei o bicho, seguro de que o meu timing fora perfeito. Reanimado, soltei o cinto de segurança, saltei para fora do R7, calcei as luvas, saquei da pistola do diesel, a toque de cotovelo fiz voar a tampa exterior do depósito da gasosa, rodei a interior, abri e comecei a despejar quilómetros para dentro do depósito. O pior é que este parecia não ter fundo, embora eu ainda tivesse tempo, ou pelo menos era nisso que desejava acreditar. Virando-me, contemplei a «box» onde se efectuava o pagamento de combustível. No interior, vislumbrei um funcionário, um miúdo, parecia ensonado. Sempre a despejar quilómetros para o depósito do R7, com a mão livre esbracejei na direcção dele, mas nada feito, parecia dormitar. Esbracejei de novo e acompanhei a minha bizarra mímica com uns berros de «Eh, eh, pá! Aqui, aqui!, anda cá! Estás com medo? Depressa pá!» Por fim, despertou e pôs-se a contemplar-me, do interior da pretensa segurança da «box», desconfiado. Que aquele tarefeiro de merda se fodesse, cismei, já tinha quarenta litros no depósito, continuava a contar e achei que bastava, pendurei a pistola, fechei o depósito, entrei no R7, tirei e deitei pela janela as luvas ao chão.
Claro que, para chatear, o R7 não pegava, recusava colaborar. O miúdo da BP saíra, acicatado, da «box» e corria para mim, totalmente despreparado, vociferando, batendo no capot do R7: «Ei, tem de pagar, tem de pagar!». Com uma última viragem do pulso rodei à chave e num estampido ensurdecedor lá peguei o R7. Engatei a primeira, dei gás, roufenho, mamutesco, em ponto de embraiagem, fazendo o puto assustar-se e recuar, quase lhe engolindo as pernas no primeiro espasmo do R7, com a luz das ópticas, que resolvi ligar, nos máximos a encandeá-lo. Vendo-o amerdejado, uma mistura de medo, de amarelo, e de algo de que por certo ele se envergonharia muito em breve, pisei a pé fundo, em segunda, enquanto descia uma fresta do vidro e o interrogava, abrupto: «Telemóvel, tens telemóvel?» Estacou, atónito, percebi que ia para balbuciar «que não», que «não tinha», mas antecipei-me e, marcando o rodado da borracha dos pneus no macadame da BP, abri dali para fora, saudando-o ainda pela fresta da janela: «Feliz Covid, feliz covid, manda a conta à bófia!» (…)

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