Acordo, de manhã cedo,
sempre fui early bird. Não sei porquê, mas gosto muito de acordar cedo. É muito
raro acordar depois das oito, mesmo quando me deito tarde. Gosto de fazer tudo
o que é importante de manhã. Acordo com energia, revigorado, há sempre uma
coisa que me apetece fazer mais do que outras, mas atualmente realizar essa
rotina é complexo e então canalizo a energia para outras atividades. A escrita
é uma delas. Ligar a CNN e ver e ouvir as últimas bacoradas do porco americano
também. Às nove vai o pequeno-almoço. Uma torrada com
manteiga e chá. É quando, por norma, aterro e olho para o dia que tenho pela
frente. Antes, era a hora em que ia tomar duche e me aperaltava, agora não, não
tomo duche de manhã, só ao fim do dia e aperalto-me antes do jantar, já que não
vou sair de casa, para quê tomar duche de manhã?
Às dez preparo e sorvo um café, fumo um
cigarro. Se o tempo colabora, vou para a varanda e deixo-me estar, uns 10
minutos, a apreciar os tímidos raios de sol da Primavera. Se o tempo não
colabora, fico pela cozinha, lavo a loiça que sobrou do jantar anterior. Depois
volto para o quarto. O meu quarto é impecável, é um quarto-estúdio. Tem tudo, a
cama, uma secretária, com o pc, uma televisão king size, um sofá confortável.
Passo os olhos pela Fox News, mas tem de ser com conta, peso e medida, porque
vomitar o pequeno-almoço não é opção. O café começa a fazer efeito e passo para
a casa de banho. Regresso ao quarto-estúdio. Será que hoje tenho de sair?
Obviamente que não, se hoje tivesse de sair teria preparado a saída no dia
anterior.
E bem, desligo a TV. Telefone comigo. O
primeiro é para o capataz do meu negócio, o único empregado a quem ainda pago.
Senhor Aparício, como estão as coisas hoje? Está tudo bem, senhor Lúcio, dei um
desbaste na eira e já florescem as rosas que me pediu para plantar. E amigos do
alheio, senhor Aparício? Veja-me lá isso, eles andam aí. Fique descansado
senhor Lúcio, passo todos os dias, uma vez de manhã e outra à noite, quando vou
passear o cão. Desligo e passo para a minha mãe. Bom dia mãe, como estás? Olha,
filho, estou no carro, tenho que ir ao Recheio e depois quero passar pela
farmácia. Sinto um calafrio, mas emprego o tom de voz mais sereno e respondo
que ok, ok, então quando chegares a casa conta coisas. Então, passo para o meu
amor. Olá gatinha, como está a correr? Já fiz duas vídeo calls, hoje, o
escritório está a ferver, prejuízos na Áustria e na Alemanha, vai ser um dia
daqueles! Falamos mais um pouco, falamos em estar juntos, quem sabe em casa
dela, que se quilhe a quarentena. Desligamos sem concluirmos. Ligo o pc e vou à
caixa online. Já sabia o que ia encontrar e continua a não ser agradável. Vou
precisar de um bailout, mas isso já eu sabia e há só uma pessoa que me pode
financiar e isso eu também já sabia mas estou a morder o tempo, quando for a
hora, lá terei de atirar o barro contra a parede e dizer-lhe: mãe, preciso de
um bailout.
São quase 11 e não tenho muito mais para
fazer. Vou varrer, varro o quarto-estúdio, o corredor e a cozinha. A casa de
banho ainda a varri ontem, não precisa. Está quase na hora de almoço. Vou ler
os blogues. Tenho uma lista de leitura e até no antes dedicava sempre uma
porçãozita da manhã aos blogues. Passo também pelo The Guardian, pela Vanity Fair
e pela The Atlantic. Os media portugueses não me interessam, cambada de
medíocres quando não de vendidos. E pronto, é meio dia. Não chove, não faz sol
e não posso sair de casa. Começo a fazer planos para o jantar. Hum. Bifinhos de
peru com natas, três queijos, cogumelos, batatas salteadas, salada de cenoura e
para a sobremesa fruta, ou pera rocha ou tangerina.
Mas ainda é cedo. Vou ao Mr Piracy. Escolho
um filme, por exemplo A Plataforma, ou Der Hauptman, ou T34, cada vez gosto
menos de Hollywood, prefiro cinema europeu, muito mais genuíno, muito menos
american stupid dream. São duas da tarde. Não almoço, mas petisco. E agora?
Agora é chato. Preparo um whisky soda e acendo um cigarro. Dá-me para pensar
nela e nos planos, a curto, a médio e a longo prazo. O scotch sabe-me bem e
relaxa-me. Só tenho de me aguentar até às sete. Preparo mais um whisky soda e
abro um livro, o Monte dos Vendavais. Leio umas trinta páginas. Cago e vou
buscar banda desenhada, Corto Maltese, Sob o Signo do Capricórnio. Que mestria
a do Pratt, que coisa mais linda, mais bem pensada, mais bem desenhada e mais
bem escrita.
Fecho os olhos e passo pelas brasas.
Desperto e ligo a TV, olha, a telescola está de regresso na RTP Memória, até
que é giro. Faço zapping para a SICN. Deixa lá ver a contabilidade do dia.
Porreiro, só mais 30 mortos e 750 casos de infetados. A coisa vai. Que horas
são agora? Já perdi a conta mas está a aproximar-se a hora do duche, de vestir
de lavado e de começar a preparar o jantar. Os tais bifinhos com natas e a
saladinha de cenoura, que olhos mais bonitos do que os meus não há e um homem que
é homem tem de se desforrar com alguma coisa. Vinho tinto do bom a acompanhar.
Upa, já estou meio grogue e mais redondo, mas pronto, diz que passa um filme
interessante no Euro Chanel. Deito-me no
sofá. Ponho-me a ver, os olhos começam a cerrar. Vejo enquanto posso. Quando
estou prestes a adormecer levanto-me, dispo-me e deito-me. Sorrio, embrulhado
nos lençóis a pensar nela e adormeço, a pensar que amanhã, amanhã será outro
dia.

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